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Uma luz sobre Palmares 2: a carta de intenções
   Severino  Carvalho  │     10 de abril de 2013   │     17:00  │  0

A Instância de Governança da Região dos Quilombos entregou, no final de março, durante o encerramento do II Encontro dos Secretários Municipais de Turismo, uma carta de intenções à secretária de Estado do Turismo, Danielle Novis.  O documento apresenta reivindicações para que de fato a atividade turística se estabeleça e se desenvolva de forma regionalizada na Zona da Mata alagoana.

De acordo com o recorte do plano estadual de turismo, a Região dos Quilombos é composta por 23 municípios. Sete deles (União dos Palmares, Murici, São José da Lage, Ibateguara, Colônia Leopoldina, Mar Vermelho e Viçosa) encabeçam o movimento e já estão com planos e metas definidas afim de desenvolver os segmentos do ecoturismo, do turismo de aventura, gastronômico e cultural.

“A Região dos Quilombos é a bola da vez do turismo alagoano”, aposta a secretária municipal de Turismo de União dos Palmares, Jacineide Maia. A carta lista as potencialidades de cada município, todos interligados pelo viés da cultura afro-brasileira, espraiada  por onde se estendeu o Quilombo dos Palmares e seu mocambos.

“Um caminho de muitas histórias e que envolve etnia, cultura, natureza, ecologia, aventura e observação de aves. Em todo o trajeto da região, o turista pode conhecer um pouco da cultura remanescente dos negros quilombolas, como artesanato, danças e culinária”, diz um trecho da carta.

União encabeça a lista e, como não poderia deixar de ser, apresenta como atrativo maior a Serra da Barriga. Oferece ainda o artesanato produzido pela comunidade quilombola do Muquém e envereda pela gastronomia.

A bela Cachoeira do Anel, em Viçosa (Foto: Severino Carvalho)

A bela Cachoeira do Anel, em Viçosa (Foto: Severino Carvalho)

Viçosa traz sua riqueza folclórica, suas cachoeiras, dentre as quais a do Anel e Dois Irmãos, na serra onde Zumbi encontrou seu último refúgio antes de ser fulminado pelas tropas de Domingos Jorge Velho.

A Atenas Alagoana, como é conhecido o município de Viçosa, já possui bons estabelecimentos hoteleiros com destaque para os hotéis-fazenda e se prepara para ganhar em breve um Centro de Convenções instalado pela prefeitura.

A lista das potencialidades e atrativos segue com o clima serrano de Mar Vermelho, a “Suíça Alagoana”, e de Ibateguara, a “Terra do Frio”; entra por Murici, o “Celeiro das Aves” que habitam a Unidade de Conservação da Mata Atlântica; prossegue com os atrativos históricos e religiosos de São José da Laje e Colônia Leopoldina.

Para que tudo aconteça, porém, é preciso atacar e viabilizar quatro pontos cruciais, na avaliação dos secretários municipais de turismo. São eles: acesso, sinalização turística, plano de marketing e capacitação da rede turística e hoteleira.

Ao receber a carta de intenções, a secretária de Estado do Turismo, Danielle Novis, garantiu que vários pontos em questão já se encontram em andamento, a exemplo da sinalização turística, porém, há solicitações que são de responsabilidade de outras pastas, mas assegurou que estará à frente das ações na articulação com os parceiros.

Minha opinião

A Instância de Governança da Região dos Quilombos não é a panaceia que irá resolver todos os problemas que até agora atravancaram o turismo na rica Zona da Mata alagoana, mas se constitui em caminho viável para que a atividade, enfim, aconteça.

Para que haja turismo porém é preciso que o tripé REDE HOTELEIRA, ATRATIVOS E INFRAESTRUTURA, esteja bem fixado. Por exemplo: não se pode vender um destino turístico desprovido de estradas eficientes e em perfeito estado de conservação. Por isso, o acesso à Serra da Barriga se faz imprescindível.

Outras rodovias precisam sair do papel, a exemplo da estrada que interliga os municípios de Murici, Capela e Atalaia; que faz a ligação entre União dos Palmares, Branquinha e Viçosa, além da retomada da construção da BR-416, alça viária que deveria interligar a BR 101 a 104, por entre os municípios de Ibateguara e Colônia Leopoldina.

Iniciada em 2002, a rodovia permanece inacabada e sem cumprir sua finalidade até hoje. Leia mais sobre este assunto no link: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=220132

Por fim, as prefeituras também devem fazer o dever de casa: cuidar melhor das cidades o que significa tornar eficiente a limpeza urbana, fazer valer as diretrizes dos planos diretores, ordenar o trânsito, entre outras obrigações.

A rede hoteleira, apesar de tímida, dá sinais de crescimento na região. Já os inúmeros atrativos são como jóias brutas que precisam, apenas, de lapidação. Então, mãos à obra! 

Pontos da Carta de Intenções entregue à Setur 

  • Acesso

.Serra da Barriga ao Parque Memorial dos Quilombos dos Palmares – 9 km
.Murici – Capela-Atalaia – 25 km
.União – Branquinha -Viçosa – 48 km
.Colônia de Leopoldina – Canastra 12 km

  • Sinalização Turística

. Posto de Informação Turística padronizado para a região.

  • Plano de Marketing

. Folheteria para a Copa do Mundo em dois idiomas
. Poster da Região dos Quilombos no Aeroporto Zumbi dos Palmares

  • Capacitação

 

  • Instalação da TV Educativa na Região dos Quilombos.

 

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Uma luz sobre Palmares
   Severino  Carvalho  │     1 de abril de 2013   │     19:24  │  2

Serra da Barriga, em União dos Palmares, reduto comandado pelo líder Zumbi (Fotos: Severino Carvalho)

Serra da Barriga, em União dos Palmares, reduto comandado pelo líder Zumbi (Fotos: Severino Carvalho)

Morei em União dos Palmares de 2001 a 2003. Fui residir na terra do poeta Jorge de Lima em razão da profissão de jornalista, onde desempenhei a função de repórter da Sucursal da Gazeta de Alagoas. Ali, dei os meus primeiros passos no jornalismo impresso, depois de graduado.

Na vida cotidiana, fiz amizades sinceras em União e, por isso, sempre volto ao município para rever os bons e velhos amigos. Quando morava por lá, minha residência tinha, do quintal, uma vista privilegiada de uma das faces da Serra da Barriga, coração do Quilombo dos Palmares, maior refúgio de negros sublevados das Américas, onde viveram mais de 20 mil pessoas, entre 1597 a 1695, sob o comando dos líderes Ganga-Zumba e Zumbi.

Subi a Serra da Barriga diversas vezes, em datas especiais como o 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) e em dias comuns. “Mas não tem nada o que se ver lá em cima”, retrucavam algumas pessoas; pasmem, a maioria moradoras do próprio município.

Posso afirmar que em todas as ocasiões senti a emoção de estar em lugar único no planeta. Ali existe história, a história do Brasil que nasceu índio e que se fez negro e pelas mãos deste. Pesquisas arqueológicas mostraram que antes mesmo da chegada dos escravos rebelados, o lugar fora ocupado pelos indígenas. Fragmentos cerâmicos produzidos pelos dois grupos étnicos foram e ainda podem ser encontrados no chão de Palmares.

Ficava matutando lá do quintal de casa e quando estava com os pés sobre o platô da Serra: “Como pode o poder público não conseguir preservar, fomentar e manter viva toda essa riqueza histórico-cultural afro-brasileira? Como pode União dos Palmares não desfrutar das riquezas geradas a partir desta atividade turística ainda tão tímida no município? Como pode parte de sua gente desconhecer a própria história?

Vivenciei de perto a luta das entidades negras palmarinas travadas para, naquela época, fazer com que o governo do Estado priorizasse a Serra da Barriga como centro das festividades alusivas ao 20 de novembro; para que Zumbi fosse reverenciado, em terras palmarinas, não só na data maior, mas durante todo o ano e para que a Fundação Palmares deixasse de gerir todo aquele patrimônio de forma remota, lá do Planalto Central, centrando definitivamente os pés em União.

Assisti e escrevi sobre a revolta dos cidadãos palmarinos quando o governo do Estado, à época, desperdiçou quase R$ 300 mil numa vila cenográfica em terras particulares, desprezando o solo sagrado da Serra da Barriga. A vila, assim como o dinheiro público, desapareceu. Também testemunhei a cobrança para que as pesquisas arqueológicas tivessem seguimento e trouxessem resultados práticos, expondo os achados em União dos Palmares.

Lembro ainda da reivindicação principal e recorrente: a melhoria do acesso íngreme à Serra. Tentativas de melhorá-lo até foram feitas, mas sem atentar aos cuidados técnicos de se realizar intervenções em um sítio arqueológico. Muitos artefatos se perderam, carreados pelas pás das motoniveladoras.

No presente, a estrada que leva ao coração de Palmares, a 500 metros de altitude, ainda não é das melhores. No platô, o governo federal construiu o Parque Memorial Zumbi dos Palmares que passa, no momento, por uma revitalização iniciada em janeiro e que deve ser finalizada em junho.

Quando o parque estava em operação, era possível conhecer, em quatro idiomas, por meio de ilhas dotadas de equipamentos de áudio, um pouco da história do Quilombo dos Palmares. Mas, antes mesmo da intervenção, o parque já funcionava de forma precária. Numa manhã de domingo, subi a Serra com um grupo de amigos e não encontramos um guia sequer. As estruturas onde deveriam funcionar os restaurantes e lanchonetes estavam vazias. Soube que o poder público deveria fazer a licitação para o uso e funcionamento daqueles espaços, coisa que nunca fez.

Um fio de luz porém começa a iluminar a Serra da Barriga e toda a região por onde se irradiou Palmares. Por meio da Instância de Governança da Região dos Quilombos, poder público e atores privados dos municípios de União dos Palmares, Murici, Ibateguara, São José da Laje e Viçosa, buscam, enfim, desenvolver o turismo de forma regionalizada, lastreado na riqueza histórica, cultural e natural desta parte do Estado de Alagoas.

É sobre as ações específicas deste modelo de gestão descentralizada do turismo, implantado no País pelo Ministério do Turismo, e os projetos para tirar do ostracismo a região dos Quilombos, que tratarei na próxima postagem.

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