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Porto Calvo quer entrar na rota do turismo da Costa dos Corais
   Severino  Carvalho  │     30 de maio de 2013   │     19:06  │  1

Dando sequência à reportagem especial sobre o passeio no rio Manguaba, publicada na edição de domingo (26 de maio) da Gazeta de Alagoas, segue mais um post.

Sem mar, mas com muita história pra contar

Expedição foi realizada para colher dados técnicos (Foto: Carlos Rosa)

Expedição foi realizada para colher dados técnicos (Foto: Carlos Rosa)

Apesar de não possuir litoral, Porto Calvo integra a região turística da Costa dos Corais alagoana justamente por causa da restinga do Rio Manguaba. Sem o mar para oferecer, porém, a cidade fica relegada, é apenas passagem para turistas a caminho do segundo maior polo hoteleiro do Estado: Maragogi.

Porto Calvo não deseja, entretanto, ser vislumbrada apenas pelo retrovisor dos veículos que trafegam pela AL-105 em direção ao litoral; quer usufruir do movimento turístico que já existe na região, atraindo visitantes com sua rica história da época do Brasil colônia que passa, necessariamente, pelas águas do Manguaba, por onde escorria a produção açucareira da época, os víveres e as armas empunhadas nas refregas entre os exércitos luso-espanhol e holandês.

Na quarta-feira (15 de maio), o diretor municipal de Cultura, Adelmo Monteiro, fez uma incursão técnica pelas águas do Manguaba, saindo do porto do Varadouro até a foz, em Porto de Pedras. Em um bote de alumínio a motor, esteve acompanhado do hoteleiro Ronaldo Uchoa, interessado em investir na formatação e exploração do roteiro turístico. A Gazeta acompanhou a expedição.

“Com esse passeio queremos trazer turistas para visitar uma das primeiras povoações de Alagoas que foi Porto Calvo e, com isso, mostrar a rica história de nosso povo. Temos Calabar (Domingos Fernandes Calabar) que, de traidor pela história oficial por ter preferido lutar ao lado dos holandeses, passou a ser considerado um herói nacional. Desejamos trazer à tona toda essa rica história de Porto Calvo”, propõe o diretor de Cultura.

O passeio pelo Manguaba já é feito pelos moradores de Porto Calvo, mas ainda não foi explorado comercialmente como atrativo turístico. Os nativos alugam jangadas e barcos a motor e descem o rio, sobretudo aos sábados, domingos e feriados, numa viagem recreativa. O pescador Gilvan dos Santos oferece o serviço por R$ 150. Em sua embarcação a motor, cabem oito pessoas. “Chego a fazer três viagens por semana. A turma leva churrasqueira aqui em cima, bebidas e a gente sai por aí”, conta.

Partindo de Porto de Pedras, algumas empresas já exploram o passeio turístico em caiaques e jangadas. Segundo Monteiro, o projeto é profissionalizar o serviço, que seria ofertado também a partir de Porto Calvo, integrando os dois municípios. “É um sonho não só do Adelmo, mas de todo portocalvense, que haja um intercâmbio turístico entre Porto de Pedras e Porto Calvo, via rio Manguaba. Esse sonho vem de muito tempo e vamos tocar em frente, torná-lo uma realidade”, aposta.

Monteiro recorda que não houve um cuidado maior das autoridades para com o patrimônio histórico de Porto Calvo. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 17 de janeiro de 1955, a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, construída em 1610, é uma das poucas referências arquitetônicas que restaram daquela época na terra do controvertido herói nacional, Domingos Fernandes Calabar

Museu

Relíquias guardadas por Adelmo vão compor museu (Foto: Waldson Costa)

Relíquias guardadas por Adelmo vão compor museu (Foto: Waldson Costa)

Outro projeto do diretor municipal de Cultura, Adelmo Monteiro, é a instalação de um museu em Porto Calvo. Ele possui dezenas de objetos encontrados por populares durante escavações aleatórias, relacionadas à construção civil, ou mesmo dentro do leito do Manguaba. São 27 balas de canhão da época em que os exércitos luso-espanhol e holandês disputavam, em longas e sangrentas escaramuças, o domínio de Porto Calvo, além de uma infinidade de outras relíquias como moedas antigas e talheres.

“Queremos resgatar um Porto Calvo que só existe hoje em fotografias. Tive o cuidado de guardar as balas de canhão que foram do século 17. Tudo será exposto no museu que também receberá outras doações”, revela Monteiro.

Porto Calvo foi edificada no alto, sobre morros, fundada em 1590 pelo sesmeiro ítalo-alemão Christopher Linz. Era o segundo núcleo de povoamento colonial do espaço geográfico do que viria a ser Alagoas; o primeiro foi Penedo (1570 a 1575).

Em 2011, a gestão municipal anterior deu início à construção do Memorial Calabar, um conjunto de cenários e esculturas que retratam a prisão e execução sumária do herói, determinadas por Matias de Albuquerque, governador da Capitania de Pernambuco.

Calabar teve uma morte violenta: foi estrangulado por meio de garroteamento e, em seguida, esquartejado. Partes do corpo foram espalhadas pela vila e a cabeça fincada na paliçada do Alto da Forca.

O diretor de Cultura afirmou que pretende finalizar o projeto para que também sirva de atrativo turístico. “Foi um grande passo dado pelo gestor passado e isso beneficiou Porto Calvo, realmente. Acredito que deve haver um melhoramento”, ponderou Monteiro.

As esculturas foram desenvolvidas pelo artista plástico Manoel Claudino da Silva, pernambucano de Pesqueira e estão instaladas no Alto da Forca, próximo do Hospital Municipal; na praça e no porto do Varadouro, que foi revitalizado. Mas, algumas esculturas estão inacabadas e outras, pichadas pelos vândalos.

Aprovação

Memorial Calabar, no Alto da Forca (Carlos Rosa)

Memorial Calabar, no Alto da Forca (Carlos Rosa)

Convidado pela prefeitura de Porto Calvo a avaliar o potencial turístico do passeio pelo rio Manguaba, o empresário Ronaldo Uchoa gostou do que viu. Ele acredita na viabilidade de se montar um roteiro de visitação a partir de Porto Calvo até Porto de Pedras, mas também fez algumas ressalvas.

“Eu acho viável, agora nós temos alguns problemas, um deles é a distância. Existe também uma possibilidade de se fazer dois receptivos: um em Porto Calvo e outro em Porto de Pedras para que o turista possa vir, fazer o passeio e daqui de Porto de Pedras regressar ao seu destino. Vamos estudar essa possibilidade”, declarou Uchoa.

O empresário enalteceu o bucolismo do passeio e chegou a comparar alguns trechos da região ao Pantanal mato-grossense, em função da enorme quantidade de água ali existente. “Um dos pontos fortes é a natureza! Hoje em dia, o turista está querendo este tipo de atrativo, coisas diferentes. Por isso, acho que vale a pena o passeio, como também explorar os atrativos da cidade de Porto Calvo e de Porto de Pedras que têm muito a oferecer”.

O empresário informou ainda que vai elaborar um relatório sobre a inspeção feita durante o percurso e entregá-lo ao prefeito de Porto Calvo, Ormindo Uchoa, apontando as características favoráveis e desfavoráveis do passeio, bem como o tipo de embarcação que deve ser empregada no transporte dos turistas.

“É preciso estudar o tipo de embarcação a ser empregado porque existem vários obstáculos dentro do rio que precisam ser observados. Não podemos botar qualquer tipo de embarcação ali para não pôr em risco a vida dos turistas. O ideal são dois catamarãs com 25 lugares cada um”, propõe.

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Rio Manguaba, no leito da história
   Severino  Carvalho  │     27 de maio de 2013   │     18:54  │  4

Na edição de domingo (26), a Gazeta de Alagoas publicou, no caderno de Municípios, reportagem assinada por este blogueiro sobre o projeto da Diretoria de Cultura de Porto Calvo que deseja transformar o passeio de barco no rio Manguaba em roteiro turístico. Reproduzo aqui o relato da incursão de 42 km que  fizemos do porto do Varadouro à foz do Manguaba, em Porto de Pedras. Boa viagem, quer dizer, boa leitura!

O passeio

Embarque acontece no porto do Varadouro,onde foi instalado o Memorial Calabar (Fotos Carlos Rosa)

Embarque acontece no porto do Varadouro, onde foi instalado o Memorial Calabar (Fotos Carlos Rosa)

Em Formação de Alagoas Boreal, o antropólogo alagoano Dirceu Lindoso revela que para se conhecer uma das linhas de colonização de Alagoas é importante uma subida do Rio Manguaba, a partir de Porto de Pedras, até o Varadouro, em Porto Calvo, ao Norte do Estado.

A Gazeta seguiu o rumo inverso. A convite do diretor municipal de Cultura, Adelmo Monteiro, e na companhia do hoteleiro Ronaldo Uchoa, descemos o rio num pequeno bote a motor de 6,5 HP pilotado pelo pescador Gilvan dos Santos. O objetivo da incursão – informou Monteiro: levantar dados técnicos para viabilizar um roteiro turístico pelas águas do histórico Manguaba.

Embarcamos às 9h45 no porto do Varadouro, onde esculturas lembram a gênese lendária da povoação personificada na figura do “Velho Calvo” e no movimento frenético de entrada e saída de mercadorias que ocorreria a partir das últimas décadas do século 16, quando os irmãos Christopher e Sibald Linz deram início à colonização da região.

Bote de alumínio nos levou pelas águas do misterioso e histórico Manguaba

Bote de alumínio nos levou pelas águas do misterioso e histórico Manguaba

Na manhã de quarta-feira (15 de maio) caía uma chuva miúda, quando seu Gilvan esticou a corda e deu a partida no motor. “Em quilômetros eu não sei, mas são duas horas de relógio até a boca do rio”, informava o pescador, ao ser indagado por Uchoa sobre a distância entre o porto do Varadouro e a foz do Manguaba, em Porto de Pedras.

Seriam 42 km singrando águas turvas e profundas, numa viagem não só de recreio ou de matar saudades – como bem descreveu Lindoso  – mas viagem histórica, de aprendizagem ao vivo dos engenhos de açúcar que colonizaram a Alagoas Boreal.

Em suas margens, ficavam estrategicamente postados dez engenhos de cana-de-açúcar e pelos seus afluentes, outros mais. “A localização de Porto Calvo como polo de colonização foi um ato de estratégia política do sesmeiro Christopher Linz ou um ato de estratégia política do donatário que lhe doou a sesmaria (…) E de estratégia econômica: as facilidades dos transportes dos açúcares pelos rios menores – Mocaitá, Comandatuba, o Grapiúna, o Carão – uns levando os carregos diretamente ao Manguaba, e os dois últimos às praias do Bitingui, do Japaratuba e do São Bento”, descreve Lindoso.

Engenho Estaleiro: bueiro resistiu ao tempo

A produção açucareira naqueles moldes cessou, mas as propriedades rurais são denominadas ainda hoje de engenhos ao invés de fazendas ou sítios. Um deles é o Estaleiro. A estrutura onde o engenho a vapor funcionava desabou recentemente sobre o que restou do maquinário de fabricação inglesa. Os engenhos a vapor integraram a última fase dos banguês, que precederam a usinização da produção açucareira.

Em frangalhos, o bueiro (chaminé) resistiu como símbolo daquela época áurea e ainda pode ser avistado do leito do rio, durante o passeio de barco. A viagem segue pelas águas que, nesta época do ano, ficam barrentas em função das chuvas. A região do Manguaba tem índices pluviométricos entre 750 mm e 1400 mm, sendo os meses de maio a setembro e de outubro a abril, respectivamente, os períodos de chuva e estiagem.

O barquinho passa pelo localidade conhecida com Lamarão. Ali, segundo Monteiro, uma barcaça que fazia o transporte do açúcar, entre Porto Calvo e Porto de Pedras, foi a pique. “Dizem os mais velhos que em períodos de estiagem ainda é possível ver parte da embarcação que naufragou. Meu desejo é fazer uma sondagem aqui, com mergulhadores profissionais, para ver o que encontramos”, relata o diretor de Cultura.

À margem esquerda, surge o povoado de Caxangá, um dos maiores de Porto Calvo. “O curioso são os traços físicos dos moradores do Caxangá. São indivíduos altos, loiros e de olhos azuis, descendentes dos holandeses que aqui estiveram a partir do século 16”, cita Monteiro.

Numa velocidade de aproximadamente sete nós, o barquinho nos leva por entre baronesas de flores azuis, também conhecidas como damas-de-lago. Nas margens, frondosas ingazeiras e canoés deitam sombras sobre as misteriosas águas do rio.

Pescadora prepara rede para lançar (Severino Carvalho)

A chuva cessa e os raios solares lançam luzes que aumentam o contraste das cores, valorizando infinitos tons de verde. Fragmentos de mata atlântica nos topos dos morros emolduram o cenário, cintados por plantações de cana-de-açúcar, nos sopés. Um pássaro nos acompanha e se apresenta em acrobacias, dando rasantes, flanando. Um peixe enorme salta a nossos olhos. Exibe-se.

Mais e mais comunidades ribeirinhas brotam pelo caminho. Avistam-se grupos de lavadeiras, pescadores, vaqueiros a tanger o gado. Outros madornam à margem, em barracas. A vida passa devagar por estas paragens, assim como o rio que, em certos trechos, se entrega ao remanso e, mais à frente, se faz avexado.

À medida que a foz se aproxima, o Manguaba vai ganhando corpo e as margens vão se afastando cada vez mais, ofertando passagem ao mundaréu de água em borbotões, ao encontro do mar. Entre Porto de Pedras e Japaratinga, o solitário pescador Samuel Galdino dos Santos, 45, captura siris, bagres e carapebas.

Do rio, ele tira o sustento da família em três, quatro incursões semanais, sobre a canoa. “Isso aqui (o rio) pra mim é tudo; é a minha sobrevivência”, resume o pescador. O trajeto de 42 km foi percorrido em duas horas e quarenta minutos. Chegamos à boca do rio às 12h25 e ficamos por ali, apreciando a paisagem.

As lavadeiras do Manguaba

A foz do Manguaba é um deslumbre, sobretudo ao entardecer. A luz branda do astro-rei se escondendo no horizonte, por trás da linha do coqueiral, lança tintas na tela celeste, refletidas nas águas do rio. Imponente, lá do alto, o farol da Marinha acompanha tudo, como um atalaia empedernido.

O Mamanguaba – nome que lhe botaram no passado os índios de língua tupi, é o mesmo Manguaba – corruptela da palavra abreviada pelos colonos – que continua a encantar nativos e turistas que visitam a Costa dos Corais.

Pescador 2

Pescador exibe siri tirado do Manguaba, nas proximidades da foz

 

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