Category Archives: História e Arqueologia

Porto de Pedras: o Forte em ruínas
   Severino  Carvalho  │     1 de fevereiro de 2016   │     11:34  │  1

Confira nesta postagem, a última parte da reportagem especial sobre o patrimônio arquitetônico de Porto de Pedras, que se encontra ameaçado por falta de políticas públicas voltadas à conservação e à restauração.

Tombado e tombando…

Cadeia Pública 1

Antigo Forte aguarda por restauração (Fotos: Severino Carvalho)

O histórico prédio da Cadeia Pública de Porto de Pedras foi o que sobrou de um forte edificado pelos luso-espanhóis em 1633. Naquela época, a construção era destinada à defesa de Porto Calvo, pois dificultava o acesso das embarcações holandesas pelo Rio Manguaba até esta freguesia, a cerca de 42 km rio acima.

Se a fortificação não sucumbiu à pesada artilharia inimiga, no presente o imóvel secular se desmancha, atingido de morte pelo abandono do poder público. Rachaduras rasgam o prédio de cima abaixo. Várias partes do telhado já desabaram.

Os moradores de Porto de Pedras evitam passar até pela calçada para não serem atingidos por fragmentos que, vez ou outra, despencam lá do alto, como se o moribundo imóvel quisesse chamar a atenção dos transeuntes, num pedido de socorro que ainda não foi entendido.

“Faz medo de passar até na porta, imagine entrar? É um risco!”, advertiu o secretário municipal de Meio Ambiente, João da Mota, que guarda a chave do antigo prédio e negou, por precaução, o acesso da reportagem ao interior do imóvel.

Tombamento

Quando o governo do Estado anunciou, em 2006, o tombamento do Forte de Porto de Pedras, transformado em Cadeia Pública, foi grande a euforia da comunidade. Paralelamente, sondagens e escavações descobriram sítios arqueológicos, a exemplo do Patacho, onde foram encontradas relíquias dos séculos 18 e 19.

O prédio seria restaurado e abrigaria um museu com os artefatos arqueológicos encontradas durante as escavações, além de servir como biblioteca pública municipal. Para isso, a Delegacia de Polícia Civil e o Grupamento de Polícia Militar (GPM), unidades que ali funcionavam, foram transferidos para imóveis cedidos pelo município.

Telhado da Cadeia Pública desabou

Telhado da Cadeia Pública desabou

A antiga Cadeia Pública ficava, então, à espera da restauração, o que nunca aconteceu.

“O prédio foi tombado, mas o tombamento será outro. Se o governo do Estado e a prefeitura não tomarem providências urgentes, o prédio vai desabar”, alerta o morador de Porto de Pedras, José Otávio Almeida da Costa, 68 anos.

“Talvez muitos moradores de Porto de Pedras não se importem hoje com o prédio da Cadeia Pública, mas quando ele desabar de vez, quando desaparecer – e eu espero que isso não aconteça – certamente vão sentir a falta dele, porque já está integrado à paisagem e ao imaginário dos moradores”, advertiu a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Josemeiry Ferrare.

Moradora de São Paulo (SP), a advogada Karina Rachid, 28 anos, lamentou a destruição do patrimônio arquitetônico de Porto de Pedras. De férias, ela visitou o município, onde ficou hospedada.

“O turista não sai de São Paulo para ver loja comercial. Ele quer saber da natureza, da história do lugar e da arquitetura, que fala um pouco sobre isso: de como é a vida numa pequena cidade do interior”, declarou ela.

Porto de Pedras é um dos principais destinos turístico da Costa dos Corais alagoana e se caracteriza por empreendimentos hoteleiros de baixa densidade, a exemplo das pousadas requintadas, em meio a praias semidesertas e de águas mornas, atraindo um grande número de turistas de várias partes do Brasil e do mundo.

Moradores conservam fachadas

Muitas casas ainda estão preservadas

Casario encanta pela simplicidade e o colorido (Fotos: Carlos Rosa / GA)

Mas, nem tudo está perdido. Ainda é possível, ao caminhar pelas ruas de Porto de Pedras, numa manhã ensolarada de dezembro, apreciar o belo e colorido casario que resiste ao tempo, graças a moradores como dona Edísia Cavalcante, 68 anos, e Luiz Carlos Santos Lima, também com 68 anos de idade.

Eles resistem aos traços da modernidade e conservam as fachadas de suas casas, apesar de promoverem algumas melhorias que julgam necessárias.

“Eu gosto de manter ela assim, porque preserva a beleza da casa. Faço reforma, coloco uma pintura nova, uma cerâmica, mas demolir: de jeito nenhum”, declara dona Edízia, que mora no mesmo endereço, na Rua Assis Lima, desde os 14 anos de idade.

Dona Edísia

Dona Edízia preserva a beleza da casa onde mora

A fachada da casa dela possui três estrelas, assim como outras da Rua Sebastião da Hora, onde existe um casarão imponente e que se destaca das demais construções. Dona Edízia revela que aquele imóvel pertence a uma tradicional família de Porto de Pedras, cujos integrantes residem em Maceió.

O casarão passa a maior parte do ano fechado, mas se mantém bem conservado. “Falam que Dom Pedro II, quando de passagem pela região (em janeiro 1860), ficou hospedado nessa casa, que ainda possui os móveis daquela época, todos em madeira de lei”, revelou.

Aposentado, ‘seu’ Luiz Carlos mora na Rua da Piedade e por devoção e respeito ao passado conserva a fachada da casa onde mora. Chegou a instalar uma grade metálica na escada – “é verdade” – mas foi para conferir segurança aos netos e evitar acidentes com os pequenos. Mantém, contudo, a sutileza do singelo e gracioso imóvel.

Luís lamenta destruição do patrimônio

Luiz lamenta destruição do patrimônio

“Acho que as pessoas que não preservam suas casas é porque não têm a consciência do valor histórico que esses imóveis possuem. Por outro lado, o município não incentiva a população a cuidar de suas casas, a preservá-las e tudo vai se perdendo”, lamentou.

Perto da casa dele, na mesma rua, encontra-se de pé e bem cuidada a Igreja da Piedade, construída em 1850, um dos símbolos do conjunto arquitetônico de Porto de Pedras.

Sem elementos

A Superintendência Estadual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) informou já ter realizado um estudo voltado ao tombamento federal do conjunto arquitetônico de Porto de Pedras, no Litoral Norte de Alagoas.

Mas, segundo o chefe da Divisão Técnica, Sandro Gama de Araújo, o Departamento de Proteção (DPROT) não encontrou elementos suficientes para que o Conselho Consultivo do IPHAN reconhecesse o conjunto da cidade como relevante a algum aspecto da história brasileira ou para a história da arquitetura nacional.

“Friso aqui que o posicionamento do DPROT, ou mesmo o que o Conselho viesse a tomar, não desmereceria a importância do conjunto, tanto para a cidade, para sua comunidade ou para a história e cultura estadual. Portanto, a comunidade de Porto de Pedras deve ser parabenizada pela vontade de proteger a história de seu lugar”, afirmou Sandro Gama.

Belo exemplar do casario de Porto de Pedras

Exemplares bem conservados ainda são vistos em Porto de Pedras

Ele afirma que os moradores devem continuar a lutar para que a cidade continue diferente das demais. Sandro Gama considera que Porto de Pedras possui um conjunto histórico importante, que gera beleza e qualidade únicas para a região, tornando-a diferente da grande maioria das cidades alagoanas.

“A cidade não pode sucumbir aos puxadinhos sem qualidade estética pelo qual todas as cidades vêm passando. Continuar diferente por preservar aspectos de sua antiguidade, essa será a mágica e a fonte econômica para aquela comunidade”, aposta.

Secult e prefeitura

Igreja da Piedade

Igreja da Piedade, de 1850

A Secretaria de Estado da Cultura (Secult) informou que a equipe técnica do Pró-Memória formatou um relatório sobre as condições do histórico prédio da Cadeia Pública / Forte de Porto de Pedras e abriu um processo junto ao Serviço de Engenharia do Estado de Alagoas (Serveal).

Nele, a Secult diz que solicitou a elaboração do projeto arquitetônico interventivo de restauração e planilha orçamentária para captação de recursos. A Secretaria relata, ainda, que firmou parceria com o IPHAN a fim de executar o projeto requerido.

“A intenção é firmar parcerias para a ocupação adequada do Patrimônio, vindo a zelar pela manutenção e conservação deste imóvel”, informou a Secult. Consultada, a prefeita de Porto de Pedras, Camila Farias (PSC), disse desconhecer a destruição do patrimônio arquitetônico do município.

“Não vejo isso”, afirmou a gestora. “E como são imóveis particulares, o poder público não tem tanta atuação. A gente pode até pedir, mas a decisão é do proprietário. Sobre a Cadeia Pública, desde o início do meu mandato que peço ao governo do Estado a restauração. Como é um prédio tombado pelo Estado, infelizmente não temos autonomia para mexer”, lamentou Camila Farias.

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Porto de Pedras, um patrimônio sob ameaça
   Severino  Carvalho  │     29 de dezembro de 2015   │     19:57  │  0

Matérias jornalísticas podem possuir caráter educativo, falar de denúncias, enfim… Esta aqui, que escrevi para as páginas da Gazeta de Alagoas, edição do dia 6 de dezembro, é um alerta, que agora posto na íntegra no blog e com mais alguns detalhes. 

Abaixo, a primeira matéria. Boa leitura!

O belo e singelo conjunto arquitetônico da pequena Porto de Pedras, no Litoral Norte de Alagoas, sucumbe à falta de políticas públicas de preservação e à ausência de educação patrimonial. Aos poucos, a marreta da insensatez vai demolindo pilares, fachadas, casas inteiras construídas entre os séculos 18 e 19.

A mão pesada do descaso também faz ruir um prédio público erigido em 1633, tombado pelo governo do Estado em 2006, mas que ainda aguarda por uma pá de salvação.

Nas fotos, o processo de demolição do casarão que se transformou em ponto comercial (Fotos: Severino Carvalho / Carlos Rosa)

Nas fotos, o processo de demolição do casarão que se transformou em ponto comercial (Fotos: Severino Carvalho / Carlos Rosa)

“É lamentável que isso esteja acontecendo. Porque esse conjunto arquitetônico representa uma fase de desenvolvimento socioeconômico e cultural daquele lugar. Quando ele desaparece, perde-se uma referência, porque arquitetura é um discurso que fala de épocas e de contextos sociais”, declarou a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Josemeiry Ferrare.

Em 2005, ela coordenou um projeto de extensão desenvolvido com alunos da disciplina de Prática de Restauro, cujo objetivo era elaborar um inventário arquitetônico de Porto de Pedras voltado à execução de ações de preservação e de educação patrimonial, entregue à Secretaria Municipal de Cultura. O trabalho catalogou cerca de 70 unidades habitacionais com potencial arquitetônico na cidade de Porto de Pedras e outras 20 no povoado de Tatuamunha.

“São exemplares de interesse histórico arquitetônico. O casario de Porto de Pedras se caracteriza, predominantemente, por casas térreas de porta e janelas, adornadas por beirais singelos ou platibandas com adorno em massa com florões, estrelas e elementos geometrizados ou vazados. Encontramos também casas com terraços laterais com colunas de embasamento alto em madeira ou alvenaria. Há ainda construções com influências neoclássica, eclética e modernista dos anos de 1960, que também são importantes”, descreveu a professora.

Uma década depois…

Prédio da Cadeia Pública: tombado em 2006, tombando em 2015 (Foto: Carlos Rosa)

Prédio da Cadeia Pública: tombado em 2006, tombando em 2015 (Foto: Carlos Rosa)

Dez anos depois do inventário, nada ou quase nada foi realizado pelo poder público no sentido de preservar esse tesouro. Paulatinamente, o patrimônio vai se esvaindo aqui e acolá. A Rua Vigário Belo guarda dois tristes exemplos. Por sobre a via de paralelepípedos, foi posta uma camada de asfalto. O piso de calçamento fazia parte do cenário interiorano da pequena cidade com pouco mais de 8 mil habitantes.

Ali havia, até outubro do ano passado, um casarão que datava de 1890, pertencente a uma tradicional família de Porto de Pedras. O imóvel, inventariado, foi vendido e a nova proprietária, a comerciante Jaqueline da Silva Santos, o colocou no chão. No local, ela ergueu um ponto comercial, onde funcionará, em breve, um mercado.

“Para fazer um ponto comercial não tinha como eu manter a casa daquele jeito, até porque eram umas janelinhas e, assim… Era toda de taipa”, disse a comerciante, afirmando que, em nenhum momento, foi procurada pelo município ou por qualquer outro órgão público durante a demolição.

Para justificar o ato, ela cita o caso, ou melhor, o descaso com o prédio do antigo forte, edificado em 1633, e que já funcionou como Cadeia Pública.

“A delegacia (Cadeia Pública) está aí: caindo aos pedaços e ninguém faz nada”, comparou Jaqueline, que diz não ter sentido nenhum remorso ao botar no chão o antigo casarão.

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Iphan retoma pesquisa arqueológica em Porto Calvo
   Severino  Carvalho  │     6 de fevereiro de 2014   │     11:38  │  2

Escavações em busca de resquícios da época das invasões holandesas (Fotos Carlos Rosa)

Escavações em busca de resquícios da época das invasões holandesas (Fotos Carlos Rosa)

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Alagoas, retomou, esta semana, o trabalho de pesquisa arqueológica em Porto Calvo, na região Norte do Estado. As sondagens se estenderão até Porto de Pedras em busca de resquícios do período colonial (século 17).

O trabalho é desenvolvido por meio de convênio entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arquelog Pesquisas (empresa contrata pelo Iphan/AL) e prefeitura municipal.

“Trata-se de um trabalho de resgate da história de Porto Calvo, de Porto de Pedras e do Brasil. Essa região foi tomada pelos holandeses, retomada pelos portugueses; tomada e retomada novamente em batalhas sangrentas, como a de Mata Redonda e do rio Comandatuba. Estamos em busca desse passado”, explicou a técnica de campo da Arquelog, Doris Walmsley.

A pesquisa é coordenada pelos arqueólogos Veléda Lucena e Marcos Albuquerque, o mesmo que coordenou os trabalhos arqueológicos que descobriram, em 2000, no Recife, a primeira sinagoga das Américas. As escavações se concentram, inicialmente, às margens do histórico rio Comandatuba, mas nenhuma evidência foi encontrada, por enquanto.

“Há muito tempo atrás eu já encontrei três balas antigas dentro do rio, quando fui tomar banho. Aí dentro tem muita coisa bonita para se descobrir”, atesta dona Maria Vandeci Alves da Silva, 74 anos, que assistia ao trabalho de escavação.

“Existem referências que em 1637 existiam aqui dois fortes e outros dois redutos. Nosso trabalho inicial é identificar esses sítios e levantar o potencial arqueológico da região. Uma vez identificados esses sítios, aprofundaremos os estudos”, relatou Doris.

Ela lembrou que o trabalho arqueológico foi iniciado em maio do ano passado, mas teve de ser suspenso um mês depois por conta das chuvas e só retomado esta semana. A pesquisa vai seguir o curso do Rio Manguaba em direção ao mar de Porto de Pedras, por onde escorria o grosso da produção açucareira da época em grandes barcaças e por onde chegavam suprimentos e armas.

Doris vem recebendo o apoio de Monteiro para quebrar a resistência dos moradores das áreas pesquisadas

Doris vem recebendo o apoio de Monteiro para quebrar a resistência dos moradores das áreas pesquisadas

A técnica observou, entretanto, que a pesquisa sofre resistência de alguns moradores das áreas estudadas. “Como aqui na região já foram encontradas botijas (duas em Maragogi e uma Japaratinga), as pessoas se negam a prestar informações. Nossa chave para abrir os caminhos é seu Adelmo. Ele conhece todo mundo e isso facilita nosso trabalho”, afirmou Doris.

Adelmo Monteiro é o diretor de Cultura de Porto Calvo, um entusiasta que auxilia os técnicos durante as pesquisas, apontando os locais onde possivelmente existem os sítios arqueológicos. Ao longo do tempo, Adelmo coleciona artefatos encontrados por populares no solo da terra de Calabar. Ele pretende doá-los ao município para a montagem de um museu e para pesquisas.

Fonte: Sucursal Maragogi / Gazeta de Alagoas

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