Divisa de AL com PE se transforma em tabuleiro de cores e sabores
   Severino  Carvalho  │     29 de novembro de 2016   │     6:00  │  0

Dona Isabel e seu banca de frutas (Fotos: Severino Carvalho)

Dona Isabel e sua banca de frutas (Fotos: Severino Carvalho)

Frutas, doces, broas, peças artesanais, bolachas, passas… As margens da rodovia AL-101 Norte, em Maragogi, se transformam num grande tabuleiro de cores, aromas e sabores durante o verão. É dessa forma que Alagoas se apresenta aos que chegam ao Estado pela divisa com Pernambuco. O comércio de ambulantes ali movimenta a economia da região, reunindo vendedores locais e das cidades de Barreiros (PE) e São José da Coroa Grande (PE).

Todos os dias – há mais de 10 anos – Edjane dos Santos, 36, atravessa a ponte sobre o Rio Persinunga, marco natural que divide os dois Estados, para vender doces no distrito de Peroba, em Maragogi, à margem da AL-101 Norte. O labor diário e o pioneirismo no ramo lhe renderam o codinome de “Rainha da Cocada”, que carrega com orgulho no fardamento e no carrinho adesivado, recém-adquirido.

Diferentemente da maioria dos vendedores, Edjane produz e comercializa suas próprias cocadas. Aprendeu a arte de fazer os doces com a mãe, dona Leonarda Batista Rodrigues, uma pernambucana de 68 anos, moradora de São José da Coroa Grande.

Edjane, a "Rainha da Cocada"

Edjane, a “Rainha da Cocada”

“Minha mãe que começou com isso aqui, deu emprego a muitos desses vendedores, mas hoje só eu vendo as cocadas que ela e eu fazemos”, conta Edjane, que chega a comercializar mais de 200 unidades por dia.

A cocada é doce, chega a derreter na boca, mas o trabalho dos vendedores não é moleza. Faça chuva ou faça sol, lá está Cícera Maria da Silva Santos, 28, à margem da AL-101 Norte. O tabuleiro repleto de cocadas se movimenta por meio das pernas ligeiras da vendedora que, ao primeiro sinal do cliente, dispara como uma flecha para oferecer o produto.

Os inúmeros quebra-molas existentes na AL-101 Norte, perto da divisa com Pernambuco, jogam a favor do time de vendedores de guloseimas. Por causa dos obstáculos, os motoristas são obrigados a reduzir a velocidade e logo são atraídos. Pela janela do automóvel entra cocada e sai dinheiro vivo.

“Eu não faço a cocada; compro de uma mulher que faz aqui mesmo em Peroba, a R$ 1,00 cada uma e revendo por R$ 2,00. É uma boa margem de lucro, mas tem que correr muito, debaixo do sol. Por isso, uso essas roupas de manga comprida, boné e protetor solar. Tem de se proteger”, conta Cícera Maria, rosto suado.

Peroba é parada sagrada no fim das missões do pastor evangélico José Amaro de Barros, que se movimenta semanalmente entre Alagoas e Pernambuco. Cliente fiel, ele não dispensa o doce.

“O que me faz parar e comprar é o sabor diferenciado, a qualidade desta cocada. Gosto mesmo da tradicional, de coco”, confessa o pastor. E a viagem segue açucarada, mais tranquila.

Frutas da estação

Frutas 1

Frutas da estação postas à venda

“No matinal, a merenda recomenda ser só frugal…”, já cantava o cantor, compositor e violeiro baiano Eugênio Avelino, popularmente conhecido como Xangai. Então, se o cliente apressado que passa pela AL-101 Norte está de dieta, o grande tabuleiro em que se transformou Peroba oferece as frutas da estação: manga, caju, jambo, mangaba…

Com filhos e netos em cachos, a professora Maria Isabel da Silva, 58 anos, é o esteio da casa. Mestra por formação, vendedora por necessidade, ela tira das frutas o sumo que faltava para completar a renda.

“Eu tenho um cesto de samburá (cipó) cheio de netos”, brinca a sempre bem-humorada professora, que divide a banca de madeira com a nora, à margem da AL-101 Norte. Esta comercializa peças artesanais. “Todo verão eu estou aqui, vendendo minhas manguinhas. Devo me aposentar já, já, mas não vou deixar isso aqui. Preciso manter a casa”, conta a voluntariosa Maria Isabel.

Clientes não faltam, sobretudo na alta estação. Peroba possui uma das faixas de praia mais bonitas do Nordeste e atrai turistas e veranistas de várias partes do Brasil, inclusive do exterior.

“De dezembro a janeiro, o movimento melhora e muito por causa temporada de verão. É tempo de faturar com os veranistas”, conta, toda satisfeita, dona Isabel.

Pernambucana de Barreiros, a dona de casa Poliana Sanguinette não resistiu às mangas expostas. Estacionou o carro em busca de uma informação acerca do endereço de uma fazenda e saiu de lá com um pacote de mangas nas mãos. “Eu não sei explicar, só sei que a manga da praia é mais saborosa”, afirmou Poliana.

O doce amargo

Cícera Maria chega a vender 100 cocadas por dia à margem da AL-101 Norte

Cícera Maria chega a vender 100 cocadas por dia à margem da AL-101 Norte

Mas nem tudo é doçura à margem da AL-101 Norte. A vendedora Joseane Rosa, 23, reclama da falta de incentivo e apoio por parte do poder público aos que comercializam produtos na divisa de Alagoas com Pernambuco. Ela cobra, por exemplo, a realização de cursos de capacitação e a padronização das barracas.

“Peroba é esquecida. Não chega nada aqui, nem curso, nada”, desabafou a garçonete que perdeu o emprego recentemente e encontrou na informalidade da venda de frutas e bolinhos de goma o sustento provisório. “Eu vendo R$ 40, R$ 50 por dia. Dá para eu ir comprando minhas roupas, minhas coisas”, afirmou a jovem.

Outro problema enfrentado pelos vendedores de frutas de Peroba é a escassez de matéria-prima. Cajueiros e mangabeiras estão sendo dizimados pela gula do mercado imobiliário. As frutas que antes eram colhidas nos sítios da região começam a ser compradas em mercados como Caruaru e Recife, em Pernambuco, e revendidas em Peroba.

“Caju e mangaba quase não existem mais. Estão acabando com os sítios para vender lotes, fazer casas. Caju, mesmo, quase que não tem. As pessoas estão comprando até do Ceará para revender aqui”, revelou a vendedora Ivanilda Maria dos Santos, 47.


Fonte: Gazeta de Alagoas

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