A quem pertence a Praia do Patacho?
   Severino  Carvalho  │     13 de janeiro de 2016   │     20:01  │  1

A paradisíaca Praia do Patacho (Fotos e vídeo: Severino Carvalho)

A paradisíaca Praia do Patacho (Fotos e vídeo: Severino Carvalho)

Na semana passada estive na paradisíaca e, agora, badalada Praia do Patacho, em Porto de Pedras, Litoral Norte de Alagoas. Minha missão, ou melhor, minha pauta jornalística, era retratar o conflito instalado naquele pedaço edênico de litoral.

Mas, afinal, a quem pertence o Patacho? Confira em reportagem especial produzida para a Gazeta de Alagoas e que reproduzo aqui.

PORTO DE PEDRAS – Eleita uma das praias desertas mais belas do país e tratada por revistas especializadas em turismo como um dos últimos redutos de litoral virgem do Brasil, Patacho, em Porto de Pedras, agora vive em meio a muito barulho. Sobre as areias macias e albas, viceja a discórdia.

O conflito se instalou depois que o lugar caiu no gosto popular, atraindo caravanas e mais caravanas de outros municípios àquele pedaço de paraíso. Com os grupos de banhistas, também vieram os paredões (estridentes sistemas de som automotivo), grandes aglomerações e lixo.

Para proteger o patrimônio privado e sob o argumento de preservar a natureza, donos de sítios e de pousadas requintadas instalaram cercas, limitando o acesso à praia. Do outro lado dos arames farpados, os banhistas e moradores de Porto de Pedras exigem a eliminação dos obstáculos.

“Menos de 500 metros de praia foi o que restou. A maior parte está toda fechada. O povo não tem mais acesso. No ritmo que vai, a praia será totalmente privatizada”, teme o comerciante Miguel Pirauá, que também trabalha realizando passeios turísticos por meio de veículo do tipo buggy.

Os donos de sítios e de pousadas argumentam que os acessos do público à praia estão mantidos. Dizem que levantaram obstáculos com objetivo de evitar a entrada de veículos automotores ao Patacho, que estariam destruindo a vegetação de restinga (salsa-marinha) e os ninhos de tartarugas-marinhas.

Caseiro de um loteamento, Laudemir Wanderley instalou uma trave feita de troncos de coqueiro na estrada principal de acesso ao Patacho para evitar a passagem de ônibus com caravanas de banhistas, vindas de outros municípios.

“Quem bagunça é esse pessoal dos ônibus. Eles não compram nada na cidade, trazem tudo de lá e ainda deixam o lixo para a gente catar. Eu mesmo que limpo essa frente de praia todinha. O dono do loteamento mandou eu botar a trave e eu botei mesmo. Obedeço ordens”, afirmou o caseiro.

“Patacho Livre”

Turistas circulam entre cercas de arame farpado para chegar à beira-mar

Turistas circulam entre cercas de arame farpado para chegar à beira-mar

Moradores de Porto de Pedras, contrários à restrição dos acessos à praia, criaram o movimento “Patacho Livre”. Segundo o professor de Biologia, Valnei Constant, trata-se, na verdade, de um fórum para discutir soluções ao impasse.

O grupo convocou a sociedade civil organizada para um grande debate realizado no sábado (9), na Escola Estadual Cyridião Durval.

“Os donos de pousadas começaram a fechar os acesos à praia e agora os proprietários de sítios, de loteamentos, todo mundo quer fechar. E o que é pior: cada um faz do seu jeito; não há uma organização por parte da prefeitura. O que queremos é que o acesso de servidão à praia seja mantido, como manda a lei”, considerou o professor.

De acordo com ele, o município não possui Plano Diretor, o que dificulta ainda mais o ordenamento, o uso e a ocupação do solo em Porto de Pedras.

“O que desejamos é organização para que todos possam aproveitar a praia, sem prejudicar a atividade turística, que é muito importante para Porto de Pedras. O que não queremos é a privatização dos espaços públicos”, contesta o professor.

Ele revelou que, num segundo momento, o movimento Patacho Livre vai pedir o apoio da Promotoria de Justiça e da Câmara de Vereadores para que realizem uma audiência pública e façam a mediação do conflito para que a paz volte a reinar no Patacho.

Acessos mantidos

Donos de sítios, de loteamentos e de pousadas instaladas no Patacho, em Porto de Pedras, negam ter fechado os acessos à praia. Segundo eles, apesar da instalação das cercas, entradas e saídas para os pedestres foram preservadas a cada 500 metros.

“Nenhuma via de acesso à praia foi eliminada. Procuramos o Ministério Público e fomos orientados a deixar as entradas de servidão a cada 500 metros; foi o que fizemos”, argumentou o produtor rural Ricardo Pessoa, dono de sítio naquela região.

De acordo com ele, além da proteção ao patrimônio privado, eles estão preocupados em preservar o meio ambiente: a fauna e a flora da Praia do Patacho.

“Cinquenta por cento da restinga já foi destruída pelos veículos automotores”, denunciou ele. Para Clemente Coutinho, dono de pousada, o que mais incomoda é a produção e o descarte irregular do lixo na Praia do Patacho.

A situação impacta diretamente a atividade hoteleira, representada por pousadas de baixa densidade – poucas unidades habitacionais – mas que atraem um público seleto do Sul e do Sudeste do País, que procuram sossego em meio a um paraíso de águas mornas e calmas.

“O lixo deixado na praia pelas caravanas causa uma imagem muito negativa ao turista. Além do mais, é uma ameaça às tartarugas-marinhas e ao peixe-boi que vive na região. Outra coisa absurda são esses paredões, que impõem um estilo de música em alto volume que nem todo mundo aprecia”, pondera Clemente.

Segundo ele, o uso desordenado da Praia do Patacho, causado pela elevação do fluxo de visitantes, começou há cerca de dois anos, quando a rodovia AL-460, entre Porto de Pedras e Porto Calvo, ficou pronta.

Antes, o principal acesso se dava por meio de travessia – feita em balsas – do Rio Manguaba, o que restringia o fluxo de veículos e de visitantes a Porto de Pedras, pelo lado Norte do Estado. Com a via terrestre pronta, passaram a frequentar o litoral da Rota Ecológica – como é conhecido o destino turístico – caravanas vindas de cidades vizinhas e até de Pernambuco, a exemplo de Caruaru e de Garanhuns.

“Entre 2004 e 2005, uma revista de circulação nacional, especializada em turismo, tratou o Patacho como o último reduto de litoral virgem do Brasil, mas, de dois anos pra cá, isso não existe mais. Não somos contra o acesso da população à praia, nem dos passantes, não fazemos distinção, mas não podemos concordar com o lixo e com esses paredões. Isso aqui vira uma Babilônia, principalmente nos feriadões”, descreveu Clemente.

Num desses feriados prolongados, excursionistas que chegaram ao Patacho em ônibus invadiram uma pousada e saltaram dentro da piscina. Hóspedes, inclusive estrangeiros, entraram em pânico. Eles achavam que se tratava de um “arrastão”.

O grupo só saiu do estabelecimento quando o proprietário acionou a polícia. Essa situação ocorreu duas vezes, levando o dono da pousada a instalar troncos de coqueiro na estrada de acesso ao Patacho, no afã de evitar a aproximação dos veículos coletivos. O obstáculo já foi retirado.

Opiniões divididas

Professor Constant mostra lixo deixado na praia do Patacho

Professor Constant mostra lixo deixado na Praia do Patacho

Os turistas ouvidos pela Gazeta de Alagoas, na Praia do Patacho, se dividem quando o assunto são as cercas que circundam aquele pedaço de litoral. A divergência pode ser notada dentro de uma mesma família.

Marilda Ferreira dos Santos, 68 anos, e Vivian Ferreira, 34, mãe e filha, têm opiniões contrárias. Elas são turistas de São Paulo (SP).

“Eu achei horríveis essas cercas. A gente teve de parar o carro e caminhar uns 200 metros”, afirmou Marilda.

“Eu acho que tem de restringir mesmo para manter essa sensação de paraíso”, contestou Vivian. A mãe contemporizou e sugeriu que a prefeitura estabeleça espaços para a realização de piqueniques.

“Em São Paulo, há espaços destinados aos recreios nas praias. Aqui deveria ser assim também”.

Coronel da reserva da Polícia Militar (PM) de Goiás, César Pacheco acredita que a solução para o conflito é a intervenção do poder público, no sentido de ordenar o uso e a ocupação do espaço.

“É preciso o braço forte do Estado para garantir o acesso de todos à praia, mas de forma ordenada, organizada. Viemos de Maceió para Porto de Galinhas (PE) e decidimos conhecer a Praia do Patacho pela fama que tem de lugar tranquilo. Mas, encontramos muita dificuldade para acharmos a praia. Faltam placas de sinalização turística. Chegamos aqui por acaso”, lamentou Pacheco, acompanhado da esposa.

A Gazeta de Alagoas tentou, mas não conseguiu estabelecer contato com a prefeita de Porto de Pedras, Camila Farias (PSC).

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COMENTÁRIOS
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  1. Edson W. Pinheiro

    Desde que eu fui morar com meu pai em Porto de Pedras em 1990 e sempre admirei está beleza, nunca vi e nem ouvir falar que ônibus entrou ali no patacho, o que estou achando é prioridades para turistas, já fiz piquenique com meu filhos em temporada de feriadoes e outras famílias por perto e nunca vi ninguém com só automotivo em volume alto não, pessoas que iam e limpava o que sujavam.

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