Projeto Peixe-Boi completa 20 anos de atuação em Alagoas
   Severino  Carvalho  │     6 de outubro de 2014   │     19:28  │  5

Neste domingo, 12 de outubro, Dia das Crianças, o Projeto Peixe-Boi Marinho completa 20 anos de atuação em Alagoas. Com a proximidade da data, resolvi, neste espaço, publicar reportagem especial que fiz, recentemente, para as páginas da Gazeta de Alagoas.

É comum muitos olharem para a figura deste animal corpulento e pensá-lo de forma isolada. Eu já pensei assim, antes de conhecer a fundo o projeto, os profissionais engajados nele e o próprio peixe-boi (risos).

Não é querendo me gabar, mas acho que sou o jornalista que mais fez coberturas sobre eventos relacionados ao mamífero aquático encantador de adultos e crianças, assim como eu; pelo menos na alma.

O peixe-boi é um bicho agregador. Cumpre com o seu papel ambiental, fertilizando a costa brasileira. Mais do que isso: a sua simples presença por estas paragens desenvolveu nas comunidades o sentimento preservacionista não só do animal, mas de todo o ecossistema em que está inserido.

E olha que coisa maravilhosa: o povo ribeirinho ainda ganha dinheiro com tudo isso. Bom, vou parar por aqui. Uma boa leitura. E quando olhar para o peixe-boi, encare-o de forma diferente.

O Projeto

Peixe-boi sobe para respirar (Foto: Severino Carvalho)

Peixe-boi sobe para respirar (Fotos: Severino Carvalho)

Foi no dia 12 de outubro de 1994 que o Projeto Peixe-Boi Marinho, desenvolvido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA), órgão ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), lançou nas águas do mar de Paripueira os animais Astro e Lua.

Começava ali uma história de luta e abnegação para salvar uma das espécies mais ameaçadas de extinção no Brasil: o peixe-boi marinho (Trichechus manatus LINNAEUS).

Em 20 anos de existência em Alagoas, o Programa de Manejo para a Conservação dos Peixes-Boi atingiu taxas de sucesso que superam muitas outras iniciativas similares existentes no mundo, elevando a variedade genética da espécie, reconectando as populações existentes e recolonizando áreas ocupadas no passado.

Nessas duas décadas de atividades, foram realizadas (até maio deste ano) 19 translocações, sendo 41 animais devolvidos à natureza, entre os Estados de Alagoas e da Paraíba; 28 só em Alagoas. Destes, 26 em Porto de Pedras, sendo esta última a principal área de soltura no País.

O peixe-boi marinho é um mamífero aquático extremamente dócil e de hábitos costeiros. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção no Brasil. Estima-se que existam apenas 500 indivíduos. Fazendo um comparativo com outro animal ameaçado de extinção do País, a Jaguatirica, por exemplo, tem população estimada em 40 mil exemplares. O felino habita o Cerrado, a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica.

Com a criação do ICMBio, houve um aumento importante no número de reintroduções realizadas pelo CMA. Entre 2008 e 2014, vinte e seis animais foram devolvidos à natureza em nove translocações (remoções).

“Fizemos uma análise estatística com todos os dados e obtivemos 76% de sucesso nas solturas, ou seja, dos animais que a gente devolve à natureza, 76% conseguem se adaptar e sobreviver. Esse é um número que a grande maioria dos projetos de reintrodução no mundo não consegue atingir; geralmente a taxa de mortalidade é muito maior”, festeja o analista ambiental do CMA, Iran Normande.

A caça intensa no período colonial dizimou populações inteiras de peixes-boi, causando sua extinção nos Estados do Espírito Santo, Bahia e Sergipe. Atualmente a degradação do habitat para instalação de fazendas de camarão e salinas é apontada como a principal ameaça à conservação da espécie.

“Registros históricos relatam que caravelas saiam do Brasil com um estoque de 500 indivíduos numa única embarcação. A carne do peixe-boi era muito apreciada. Era tanto usada para alimentar a tripulação no percurso, como vendida como iguaria nos mercados europeus. A carne era conservada no próprio óleo do peixe-boi, o que fazia com que durasse de seis meses a um ano, já que naquela época não havia refrigeração”, revelou Normande.

Tratamento individualizado é receita para o sucesso

Tratadores preparam mais um peixe-boi para ser devolvido à natureza em Porto de Pedras

Tratadores preparam mais um peixe-boi para ser devolvido à natureza em Porto de Pedras

O biólogo Iran Nornande apresentou, em fevereiro deste ano, a tese de mestrado intitulada: “Manejo para Conservação de Peixes-Boi Marinhos no Brasil: Programa de Soltura e Monitoramento”. Analista ambiental do ICMBio, ele aponta o segredo do sucesso alcançado pelo Programa de Manejo para a Conservação dos Peixes-Boi, desenvolvido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA) em Alagoas: a atenção individualizada aos animais.

“Esses indivíduos estão numa estado tão crítico que a gente precisa tratá-los de forma individualizada. Normalmente, em se tratando de conservação, a gente trabalha com populações e áreas prioritárias. Com os peixes-boi, precisamos trabalhar com cada indivíduo”, explicou Normande.

O Projeto Peixe-Boi atua no resgate desses indivíduos, geralmente encalhados ou fragilizados na costa Norte do País. Eles são levados à sede da entidade, na Ilha de Itamaracá, Pernambuco, onde recebem cuidados especiais ofertados por uma equipe multidisciplinar.

Ali, se recuperam até serem reintroduzidos à natureza no estuário do Rio Tatuamunha, em Porto de Pedras, Litoral Norte de Alagoas, dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais.

“Tecnicamente, o projeto tem um nível de sucesso bastante alto muito em função da atenção individualizada que a gente dá para cada peixe-boi. Cada indivíduo tem um valor muito grande para a conservação. Por isso, fazemos o monitoramento intensivo, depois que a gente solta, para garantir que aquele animal se adapte à natureza e venha a se reproduzir no futuro”, explica Normande.

Contribuições

O biólogo aponta que a primeira contribuição do Programa de Manejo para a Conservação dos Peixes-boi é a elevação da variabilidade genética destas populações, protegendo-as da extinção.

“A primeira contribuição é inserir mais indivíduos e mais genes alelos numa população que está pequena e pobre geneticamente. Dessa forma, a gente está reforçando a população de peixes-boi em Alagoas para que não fique muito pequena, não tenha consanguinidade, que é quando parentes começam a copular com parentes e nascem indivíduos com problemas”, detalhou.

A segunda contribuição, segundo o biólogo, é conectar as populações de peixes-boi existentes em Alagoas com as que estão ao Norte de Pernambuco.

“Quando uma população fica isolada, a tendência é que não consiga trocar genes com outras e acontece aquilo que falei: a espécie vai ficando pouco variável geneticamente. Isso é ruim porque a qualquer evento estocástico: alguma epidemia, situações climáticas estremas, pode fazer com que toda uma população desapareça”, citou.

O terceiro fator de contribuição é a recolonização das zonas onde havia ocorrências. “Estamos recolonizando áreas de ocorrências históricas onde o peixe-boi foi extinto pela caça ou por algum outro fator”, finalizou.

Participação popular

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Peixe-boi ganha as águas do Rio Tatuamunha

Em junho, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA) realizou a vigésima translocação de animais entre o Centro de Reabilitação de Mamíferos Aquáticos, na sede do Projeto Peixe-Boi, em Itamaracá (PE), ao recinto de readaptação em Porto de Pedras, Litoral Norte de Alagoas.

A vigésima remoção de peixes-boi integrou as comemorações alusivas aos 20 anos de atuação do programa em Alagoas, iniciada, em maio, com a realização do Seminário Astro & Lua, no Clube Municipal de Porto de Pedras.

Naquela oportunidade, estudantes de escolas públicas de São Miguel dos Milagres e de Porto de Pedras conheceram um pouco mais sobre os peixes-boi e a atuação do projeto em Alagoas. Eventos como o seminário Astro & Lua buscam o engajamento da sociedade na luta pela preservação da espécie.

O ICMBio, através do Projeto Peixe-Boi, vem atuando no incentivo à formalização dos conselhos municipais de meio de ambiente e à estruturação das secretarias municipais de meio ambiente  ao longo da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais. O objetivo é elevar a participação popular e do poder público local na resolução dos problemas ambientais.

Associações de ribeirinhos e de jovens protagonistas, bem como organizações não governamentais, a exemplo do Instituto Yandê, também recebem apoio e incentivo do projeto.

“A vinda do Projeto Peixe-Boi para a região trouxe um cuidado maior com a natureza. Ele chegou e salvou o nosso manguezal, o Rio Tatuamunha. O projeto fez uma coisa muito bonita que foi levar a comunidade junto, para vestir a camisa da preservação ambiental, então foi uma coisa muito positiva”, destacou o conselheiro do Instituto Yandê, Tsahi Greenhut.

Em torno do peixe-boi se desenvolveu toda uma atividade econômica, de lastro comunitário, que vai desde o turismo de observação do animal à produção artesanal de bichos de pelúcia e de outros objetos que se inspiram na figura rechonchuda e afável do mamífero aquático.

“A comunidade também ganha porque temos turistas que vêm para a região só para ver o peixe-boi. As pousadas ganham mais hospedagens porque o peixe-boi é destaque no âmbito nacional e internacional. As crianças e adolescentes crescem com o peixe-boi, lado a lado, e sonham algum dia poder trabalhar como guia turístico”, completou Tsahi, que é israelense e tem uma pousada na região.

Poluição ameaça santuário do peixe-boi em Alagoas

Recinto de readaptação do peixe-boi em Porto de Pedras

Recinto de readaptação do peixe-boi em Porto de Pedras

A caça no período colonial e, mais recentemente, as fazendas de criação de camarão e as salinas dizimaram populações interiras de peixes-boi ao longo da costa brasileira. Em Alagoas, esses animais encontraram seu refúgio nas águas calmas da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, maior unidade de conservação marinha do País. O lançamento de esgoto sem tratamento e de outros efluentes, porém, se constituem na principal ameaça ao habitat desses mamíferos aquáticos.

“Seus ambientes, cada vez mais, estão sendo degradados e diminuídos de forma intensa, sejam diretamente ou indiretamente por meio da poluição do continente para dentro do mar, acabando com os bancos de algas marinhas que são fontes de alimentos para esses animais”, salientou o chefe da APA Costa dos Corais, Paulo Roberto Corrêa.

Para o analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Iran Normande, a APA Costa dos Corais ainda é um lugar seguro para o peixe-boi viver e procriar, apesar de algumas áreas já apresentarem riscos à espécie.

“Temos diferentes realidades dentro da APA Costa dos Corais, desde Maragogi, onde há um trânsito intenso de embarcações que podem atingir os animais, até Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres, onde há menos ocupação humana, menos tráfego de embarcações e é considerada uma área mais adequada, menos impactada por poluição. Existe um gradiente. Não podemos falar que a APA toda está bem, mas há ainda algumas áreas seguras”, destacou Normande.

Segundo o analista ambiental do ICMBio, Ulisses Santos, dos 41 animais reintroduzidos pelo Projeto Peixe-Boi em Alagoas, seis vieram a óbito: dois por não adaptação à dieta, dois por pesca predatória e outros dois por ingestão de lixo e contaminação das águas.

“A perda do habitat é considerada a maior ameaça. O peixe-boi é muito dependente desse ambiente costeiro, estuarino, de manguezal. Ele precisa dos estuários para beber água, precisa desse ambiente para reproduzir”, destacou Santos.

“O rio menos poluído é o Tatuamunha,  onde existe o recinto de readaptação, por ter ainda um manguezal preservado. Todos aqueles estuários que possuem um manguezal ainda preservado estão mais protegidos. O manguezal, além de diversos benefícios, serve também como filtro de toda a poluição que vem de encostas, dos canaviais, das cidades”, acrescentou Paulo Roberto.

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COMENTÁRIOS
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  1. Angela Machado Teles

    PARABÉNS PORTO DE PEDRAS.ALAGOAS.PROFESSORA DE BIOLOGIA FLÁVIA PELO BRILHANTE PROJETO PEIXE BOI.ORGULHO PARA TODOS OS BRASILEIROS.COMO EDUCADORA AGRADEÇO A BELEZA E IMPORTÂNCIA NA PRESERVAÇÁO DO PEIXE BOI.ABRAÇOS.

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  2. silvana da silva

    parabens espero um dia poder conhecer pessoalmente esta acoçiacão linda amei nem sabia que existia mas ja mi apaxonei

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  3. Elisabete Alves aguiar

    Parabéns a todos que se dedicam ao trabalho de preservação do peixe boi, principalmente à Flávia que se dedica de corpo e alma, sem querer nada em troca, somente o apoio das pessoas. Grande abraço a todos que fazem parte do projeto. Que Deus continue abençoando vocês!

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  4. Ronaldo Matos

    Hoje Sábado 11 de Outubro de 2014, Tive o prazer Assistir pela Rede Globo programa de Luciano Hulk todo trabalho que essa associação produz e quero aqui parabenizar a presidência da instituição pela brilhante luta em prol do Peixe boi de grande importância para o nosso meio ambiente na conservação dessa espécie quase em extinção.

    Em breve farei uma visita

    Parabéns

    Ronaldo Matos

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