No Dia do Folclore, o Samba de Matuto Leão da Primavera
   Severino  Carvalho  │     22 de agosto de 2014   │     18:40  │  1

Nesta sexta-feira, comemora-se o Dia do Folclore. Para saudar a data, reproduzo na íntegra a reportagem que escrevi para as páginas da Gazeta de Alagoas sobre o samba de matuto e o risco deste folguedo se extinguir. Boa leitura!  

O Grupo de Samba de Matuto Leão da Primavera (Fotos: Carlos Rosa)

O Grupo de Samba de Matuto Leão da Primavera (Fotos: Carlos Rosa)

Para muitas religiões, a morte não é o fim. Em se tratando de cultura popular, os ensinamentos, crenças, costumes se perpetuam geração após geração. O falecimento do mestre Sebastião Amaro dos Santos, 81 anos, o “Tião do Samba de Matuto”, entretanto, suscitou a preocupação de o folguedo popular desaparecer, se extinguir.

Tião morreu no distrito de Barra Grande, em Maragogi, no dia 28 de julho, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Morria ali a voz potente e anasalada que encantou Alagoas. Deixou órfão o grupo “Leão da Primavera”, que comandava há décadas.

“Há dois grupos de Samba de Matuto em Alagoas, um em Massagueira e outro em Maragogi. O de Massagueira é formado por integrantes da terceira idade, mas o grupo tradicional mesmo é o de Maragogi. Nossa preocupação é saber se alguém ficou para liderar o grupo deste folguedo, que se encontra quase extinto”, alertou a servidora da Secult, Josefina Novaes, integrante da Associação dos Folguedos Populares de Alagoas (Asfopal).

Em agosto de 2012, o mestre Sebastião recebeu da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) o Registro de Patrimônio Vivo de Alagoas, um reconhecimento à importância do saber tradicional e popular que os mestres e mestras passam de geração em geração.

Mestre Bié promete assumir o Leão da Primavera

Mestre Bié promete assumir e não deixar morrer o Leão da Primavera

Teme-se em Maragogi que o Samba de Matuto morra a exemplo do que aconteceu com o Bumba Meu Boi do Mestre Eurico, que faleceu em um trágico acidente de trânsito. “O que temos hoje em Alagoas é o boi de carnaval. O único grupo tradicional existente era o do mestre Eurico”, recorda Josefina.

Segundo o professor de História, o maragogiense José Carlos da Silva, o Dodô, além da falta de apoio institucional, o Bumba Meu Boi do Mestre Eurico se acabou em virtude de uma disputa entre os dois núcleos de família constituídos pelo patriarca.

“Com a morte do mestre, a família que não dançava ficou com o espólio, com os trajes e os instrumentos da dança; a outra parte que dançava, nada recebeu. Então ficou essa cisma e as autoridades ligadas à Cultura do município nunca conseguiram ou não se empenharam em tentar solucionar esse impasse”, observou Dodô.

A Gazeta de Alagoas tentou conversar com os filhos do mestre Eurico, mas eles não quiseram comentar o assunto. Um deles até agendou entrevista, mas a reportagem, no horário marcado, não o encontrou em casa.

De Mestre Eurico ficou apenas a recordação em forma de monumento. Em 2004, logo após a morte dele, a prefeitura de Maragogi ergueu, em homenagem ao artista popular, a escultura de um bumba meu boi no centro de uma praça de Barra Grande, que ganhou o nome do mestre.

Houve, entretanto, resistência de uma parte da população que não entendeu a homenagem. As pessoas começaram a chamar o logradouro de “Praça dos Cornos”, por conta dos chifres do bumba. Houve até ameaças de demolição o que, para o bem da cultura popular e da memória de mestre Eurico, nunca aconteceu.

Para Josefina, além das políticas públicas de valorização dos folguedos populares é preciso preparar pessoas para que assumam os grupos que estão prestes a se extinguir, a exemplo do que ocorreu com o Quilombo de Limoeiro de Anadia.

“Eles formaram um grupo de crianças que está aprendendo esta manifestação popular. É o único grupo de Quilombo que temos em Alagoas e eles têm essa preocupação de manter viva a tradição”, salientou.

A voz do samba de matuto está viva

O Mestre Tião comandava há cerca de 50 anos o grupo folclórico (Foto: divulgação)

O Mestre Tião comandava há cerca de 50 anos o grupo folclórico (Foto: divulgação)

O Samba de Matuto se originou em antigos engenhos de cana-de-açúcar. Embalado pelo bombo e o ganzá, foi adaptado dos maracatus pernambucanos e sofreu influência dos pastoris e danças de coco. A mestra, a contramestra e a porta-bandeira fazem o passo ao apito do cantador. Este tira versos de improviso, canta a natureza, coisas do cotidiano, enquanto as baianas (de oito a doze) bailam com seus vestidos multicoloridos de fita, chapéu de palha sobre a cabeça, repetindo com suas vozes afinadas e agudas as melodias entoadas pelo mestre.

Foi justamente o apito prateado que o pedreiro Renato Manoel dos Santos, 74 anos, fez questão de levar ao sepultamento do mestre Sebastião Amaro dos Santos, 81 anos, o “Tião do Samba de Matuto”, ocorrido no dia 29 de julho, no distrito de São Bento, em Maragogi.

O apito pertencia a Tião e foi repassado a Renato Manoel pelo grupo folclórico Leão da Primavera, como símbolo de uma missão: não deixar o Samba de Matuto morrer. E se depender do Mestre Bié – como é conhecido Renato Manoel – a voz do Leão da Primavera continuará viva, a rugir.

“Eu não perdi uma pessoa qualquer, perdi um irmão. Eu estava parado, mas por causa da morte dele, vou voltar a cantar para não deixar o Samba de Matuto morrer”, prometeu Bié, abraçado e muito festejado pelas baianas. O pacto foi selado tendo o Bumba Meu Boi, na praça Mestre Eurico, como testemunha; tudo devidamente registrado pela Gazeta de Alagoas.

Pedreiro por vocação, Bié vai erigindo seus versos tijolo a tijolo, frase por frase, inspirado, quase sempre, pela mãe natureza. “Eu gosto de trabalhar cantando. O serviço de pedreiro fica mais maneiro”, disse ele, que canta desde os 14 anos de idade, quando assistia às apresentações do Samba de Matuto em sua cidade natal: Porto da Rua, em São Miguel dos Milagres, no Litoral Norte de Alagoas.

Pelejas

A alegria da baiana

A alegria da baiana

Talento precoce, aos 16 anos Bié já era mestre. A composição que lhe conferiu fama veio um ano depois e tem 120 pés (cada uma das quatro frases que formam a estrofe); envolve um sem-número de nomes de peixes, resultado da observação e do convívio com os pescadores do Litoral Norte de Alagoas.

“Saí à maré a pescar / Com a chumbada e o anzol / Ferreiro e ariocó / Comecei logo a ferrar / Cavala Bico e Pirá / Tubarão e Sirigado / Mero / Xaréu e Dourado / Tudo se vê em currá.”

Bié era afeito aos desafios do repente. Adorava botar pra correr os cantadores que o tiravam para uma peleja. “Eu achava aquilo bonito, era amostrado, gostava de briga e o povo achava bom. Eu soltava os cachorros pra cima, mesmo!”, recordou. A fama de bom cantador e a disposição para embates, porém, lhe renderam inimizades e Bié calou-se por longos 30 anos.

“Ou eu parava ou eu morria; não estaria aqui dando essa entrevista para você hoje”, ponderou o mestre, que teve uma espécie de sonho revelador em que um vulto lhe alertava sobre os riscos que corria se continuasse com as pelejas malcriadas. Bié citou uma das suas abusadas composições que fez no embate contra o cantador por nome de Luiz Candolino.

O adversário chamou-lhe para a batalha com a seguinte cantoria: “Todos prestem atenção / Que eu tenho boa memória / Do jeito que eu venho agora / Dou até no meu irmão.”

E Bié respondeu: “Tô avisando a esses poetas forasteiros / Quando chegar à sede de função / Olhe não venha passando o pé pela mão / Que é falta de educação e sinal de mau companheiro / Hoje de nós dois vamos vê quem sai primeiro / Que eu sou verdadeiro / Nunca perdi meu mister / Mas hoje aqui só não apanha mulé / Que não é mestre de samba e nem de guerreiro”.

Pai de quatro filhos, avô de três netos, Bié diz que voltou a cantar, mas com prudência, sem atacar ninguém. A morte transformadora do mestre e amigo Tião fez renascer a verve do artista. “Eu estava cantando, mas sem compromisso, só quando as pessoas me convidavam. Agora, com a morte do mestre Tião, eu vou voltar”, prometeu, para depois ser abraçado e cumprimentado pelas baianas.

 

Ações

Mestre Bié se concentra para tirar o verso

Mestre Bié se concentra para tirar o verso

O Secretário Municipal de Cultura de Maragogi, Jádson Almeida, o “Jacó”, afirmou, em entrevista à Gazeta de Alagoas, que vai se empenhar para manter vivo o Samba de Matuto por meio do grupo Leão da Primavera. Garantiu ainda que reunirá todos os registros referentes ao mestre Tião para que o material sirva como fonte de pesquisa aos que desejam aprender mais sobre o folguedo e disseminar conhecimento.

“Nosso objetivo é preservar a memória do mestre Tião e manter aceso o Samba de Matuto. Temos filmagens feitas com ele que serão coletadas e reunidas para que sirvam de registro”, declarou Jacó.

Ele revelou que também deseja levar o Samba de Matuto às escolas do município e junto aos grupos jovens que atuam em Maragogi. “Vou me reunir com as baianas e com o mestre Bié para que se apresentem quinzenalmente na Praça dos Idosos, na orla da cidade”, contou o secretário de Cultura.

Maragogi é considerado o segundo maior polo hoteleiro do Estado e, na avaliação de Jacó, as manifestações culturais podem e devem servir de atrativo aos visitantes, diversificando as opções, além do sol e do mar. A notícia de que o grupo receberá incentivo da prefeitura animou os brincantes.

“Tem muita gente que acha o Samba bonito, principalmente os turistas que vêm de fora, mas os mais novos daqui não dão muito valor, ficam mangando da gente”, lamentou a baiana Maria José da Conceição, 69 anos.

Uma das preocupações de Jacó é justamente com a idade das brincantes. A mais nova tem 66 anos. Segundo ele, será necessário também incentivar o gosto pela dança nas mulheres mais jovens. “Antigamente, o povo andava três, quatro léguas a pé para assistir ao Samba de Matuto. Hoje, quem é vizinho de um Samba fecha as portas e chama a polícia”, lamentou o mestre Bié.

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COMENTÁRIOS
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  1. Severino Cassiano Ferreira

    Com alegria e saudades,lemos e recordamos,da essência da nossa Cultura,principalmente folclórica do Município de Maragogi,da nossa sempre querida Barra Grande,dos folguedos populares e, agora com o que o jornalista Severino Carvalho,com esta magistral Reportagem,depoimentos do nosso ex-aluno,mas amigo Dodô, o Jaco, tudo isto engrandece o que o Severino Carvalho escreveu. Ah! como ecoam as vozes do Mestre Eurico e componentes do seu grupo em Barra Grande,Antunes,nas suas apresentações do famoso Bum-Meu-Boi.Saudade,”poeira” do passado que deixa marca!.
    Parabéns,Severino Carvalho e ao Rosa pelas suas fotos!

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