Pacificação torna possível o turismo no Morro do Alemão
   Severino  Carvalho  │     6 de janeiro de 2014   │     17:14  │  0

Segue a segunda parte da reportagem especial sobre o Turismo de Base Comunitária. Boa leitura!

O turismo de base comunitária no Complexo do Alemão (RJ) só foi possível com o processo de pacificação implantado pelo poder público. É o que afirma o artesão Cléber de Araújo Santos. Os homens do tráfico de entorpecentes, armados ostensivamente, impediam que a atividade econômica se desenvolvesse.

Cléber diz que turismo só foi possível com a pacificação (Severino Carvalho)

Cléber afirma que turismo só foi possível com a pacificação (Severino Carvalho)

“Isso é mérito da pacificação, do governo do Estado, que fez as UPPS (Unidades de Polícia Pacificadora) lá dentro e só depois disso é que a gente pôde desfrutar do turismo”, recordou Araújo.

Ele conta que a comunidade do Alemão começou a sonhar em explorar o turismo dentro do complexo sobretudo após a instalação do teleférico.

Inaugurado no dia 7 de julho de 2011 e administrado pela SuperVia, o Teleférico do Alemão é o primeiro e único transporte de massa por cabo do Brasil.

Integrado ao sistema de transporte ferroviário, ele possui seis estações ao longo do Complexo: Bonsucesso/Tim, Adeus, Baiana, Alemão/Kibon, Itararé e Palmeiras.

De tanto ver os turistas passarem içados, mas com os olhos vidrados para baixo, os moradores despertaram para o filão que passeava dependurado, como uma valiosa mercadoria, quase inatingível.

“A gente sonhava com isso muito antes, quando começou a obra do teleférico. Quando houve a pacificação, entramos com toda a força”, recordou.

Segundo a empresa que administra o transporte, o recorde de passageiros transportados em um único dia foi 19 mil pessoas em 15 de dezembro de 2012. Desde a inauguração, mais de 7 milhões já utilizaram o meio.

Segundo Araújo, o turismo de base comunitária no Alemão consegue atrair, para um passeio a pé pela favela, uma pequena parcela desse público, a maioria de turistas internacionais; o brasileiro ainda tem muito preconceito em visitar a favela por causa da violência que permanece no imaginário nacional, mesmo depois da pacificação.

“Nosso grande desafio foi, sem recursos, tentar convencer essas pessoas a fazer o passeio. É por isso que fico das 8 horas da manhã até as 8 horas da noite na última estação (Palmeiras) convencendo essas pessoas, dizendo que elas também têm de descer e conhecer a favela. Temos uma média de 200 pessoas andando na favela com o nosso trabalho. O último grupo (de 84 pessoas) deixou R$ 12.400. Em média, um turista nosso gasta R$ 200 na comunidade”.

Quando Araújo fala “na comunidade”, ele se refere ao conjunto de pequenos empreendimentos que se formou para acomodar e divertir o turista que deixa o asfalto e sobe o morro, fagueiro. São pizzarias, restaurantes, sorveterias, ambulantes, gente disposta a trabalhar duro, mas perto de casa.

“Noventa por cento dos trabalhadores da Zona Sul são procedentes das favelas”, atesta Araújo. O artesão cita o caso do cozinheiro Jorge Santos. Ele trabalhou dez anos no hotel Copacabana Palace e enxergou no turismo de base comunitária a oportunidade. Pediu demissão e, com o dinheiro que juntou, investiu num restaurante dentro da favela.

“Tem outro, o Rafael Duarte, que trabalhou no restaurante Le Pré Catelan, no Sofitel, em Copacabana. A massa quem faz é ele. O cara pegou todas as nuances de um chef francês do Le Pré Catelan e criou o seu restaurante dentro da favela, com uma carta de vinhos chilenos a R$ 6 a taça. A gente almoça um prato de massa italiana, das mais requintadas, por R$ 11”.

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