O bom exemplo do Yandê
   Severino  Carvalho  │     1 de maio de 2013   │     20:01  │  0

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No térreo do casarão situado à Rua Felisberto de Ataíde, povoado Toque, em São Miguel dos Milagres, artesãs cortam, costuram e produzem na oficina Peixe-Boi & Arte. Um andar acima, crianças embarcam num mundo fantástico por meio das aulas de Leitura, Escrita e Contação de Histórias. Noutra sala, jovens e adolescentes dão os primeiros passos e desbravam o terreno digital da informática. Sustentando todo o prédio, estão os pilares: educação, cultura e meio ambiente.

As bases foram lançadas por empresários, educadores, ambientalistas e moradores dos municípios de Passo do Camaragibe, São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras, no Litoral Norte de Alagoas. Há um ano, o grupo criou o Instituto Yandê, uma organização não governamental (ONG) cujo objetivo é criar e implementar projetos que contribuam para o desenvolvimento sustentável de uma região com forte apelo turístico, mas que ainda possui carências estruturais e agudos problemas sociais.

A entidade é mantida com doações mensais. A Oficina Peixe-Boi & Arte beneficia artesãs que produzem e comercializam souvenires em tecido a partir da simpática figura do peixe-boi marinho. A região é considerada um santuário para a preservação e reprodução da espécie de mamífero aquático mais ameaçada de extinção no Brasil, escolhida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), parceiro da ONG, para abrigar o projeto que resguarda esses animais.

O Yandê oferece apoio à oficina em forma de consultoria e cessão de espaço. “Eu sinto que é de suma importância um produto educativo como esse que serve de conscientização ambiental. Isso não é somente uma lembrancinha, estou colocando no mercado um produto que simboliza o turismo sustentável”, descreve Maria José dos Santos, 49 anos.

Apoiada pelo Instituto, ela fundou uma microempresa com outras duas artesãs amigas, onde são produzidas, diariamente, 25 peças vendidas na própria sede do Yandê e em cidades vizinhas como Maragogi, Japaratinga, Porto de Pedras e até em Maceió. Turistas que fazem o passeio de observação, atividade regrada pelo ICMbio, visitam o ponto de venda e sempre saem de lá com uma lembrancinha, seja um chaveiro que custa R$ 10 ou um rechonchudo peixe-boi de pelúcia tamanho GG por R$ 85.

“Os turistas conhecem toda a história do peixe-boi durante o passeio, ficam encantados e quando chegam aqui querem levar o bichinho de pelúcia”, conta Maria José, que já trabalhou na hotelaria, como artesã da fibra da bananeira e agora vive única e exclusivamente da produção de souvenirs do peixe-boi.

“Minha vida mudou pra melhor, embora sei que preciso aprender ainda mais algumas coisas, mas, para mim, estou no lugar certo porque estou fazendo uma coisa que eu gosto e não o que os outros estão me mandando fazer”, completa Elineuza Januário dos Santos, 39, a “Branca”, sócia de Maria José.

Ler e coçar é só começar

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A Oficina de Leitura, Escrita e Contação de Histórias é uma das cinco ações em desenvolvimento executadas pelo Instituto Yandê. Nela, alunos descobrem o prazer da leitura, orientados pela pedagoga Geisa Andrade. Crianças e adolescentes exploram um acervo de livros infanto juvenis para depois contarem suas próprias histórias através de livros de pano, artesanalmente ilustrados e costurados à mão.

“Construir os livros é como se fosse um estágio de culminância a partir de um trabalho que tem, como primeiro passo, ouvir a história que eu conto, ouvir histórias contadas por eles, ler muitos livros aqui e em casa. Depois, com o exercício grande de conhecer textos interessantes, eles já têm competência de produzir; alguns mais, outros menos”, explica Geisa, funcionária pública aposentada e voluntária da ONG.

O grupo de crianças e adolescentes lançou mais uma leva de livros em pano. A solenidade aconteceu no dia 26 de abril, na sede do Instituto Yandê. São histórias como o “Castelo Mágico”, escrita e costurada pela pequena Jéssica Patrícia, 11 anos, aluna do 8ª ano.

“É a história de uma menina que gostava muito de uma cidade, mas que a mãe dela não a deixava ir porque era longe. Teve um dia em que ela decidiu fugir. Saiu pela floresta sem que a mãe soubesse e quando chegou lá se deparou com um lobo, que ela nunca tinha visto. Ela começou a gritar e voltou correndo para a mãe e disse que jamais fugiria novamente”, resumiu Jéssica. A pedagoga revela que as histórias contadas e registradas pelos alunos sofrem influência direta dos livros lidos durante a oficina, embora alguns contos tenham a ver com o dia a dia da comunidade, mas sempre com uma pitada de fantasia.

“Duas meninas falaram sobre o peixe-boi, mas criaram uma história em cima do animal. Um outro criou uma história de violência, a partir de um fato que aconteceu na vida dele, mas o Castelo Mágico é contada a partir de uma história de lobisomem, que é algo que a comunidade conta também. O acesso que elas têm a alguma coisa relacionada com a fantasia é a televisão. E eu acredito que leitura da literatura via livros ainda é um caminho muito importante, assim como é importante a televisão, o cinema, o teatro”, declarou a pedagoga.

A história de violência foi relatada pelo aluno do 7º ano Jonatas dos Santos Balbino, 14 anos. A família dele saiu da atribulação da capital alagoana para morar na plácida São Miguel dos Milagres, em busca de sossego. “Minha História” relata o drama vivido pelo pai do menino, assaltado em Maceió.

“Meu pai decidiu sair de Maceió e vir morar aqui, uma cidade muito linda, cheia de manguezais e muitas coisas legais. Estou feliz e não quero mais sair daqui”, diz o adolescente, que teve na literatura uma aliada para vencer o trauma da violência.

Voluntários se engajam no projeto

Aposentada, a pedagoga Geisa Andrade estabeleceu moradia em São Miguel dos Milagres cinco anos atrás, região que conhece há mais de uma década. Antes, residia em Olinda (PE), onde trabalhou no serviço público, mas sempre dedicando parte do seu tempo às organizações não governamentais (ONGs).

“Trabalhar em ONG é uma coisa que faço há muitos anos. Eu já trabalhava em Olinda no Centro de Cultura Luiz Freire, uma ONG muito antiga, então conheço bastante este campo. É um caminho que trilhei a vida quase toda, paralelamente ao serviço público.Então, vir pra cá para fazer um trabalho foi um desejo a partir de uma necessidade que se tem em todo o lugar de juntar as crianças, jovens, para poder criar”, explicou a pedagoga, que é diretora executiva do Instituto Yandê.

Iandê, em tupi-guarani, deseja, ao mesmo tempo, dizer “nós e nosso”. Com o “y” no lugar do “i”, a palavra acrescenta ao seu significado o adjetivo grande: um imenso corpo coletivo com o desejo de crescer em harmonia com o meio em que se vive. Essa é a ideia da ONG e esse o espírito em que está imbuído o empresário israelense Tsahi Greenhut, conselheiro e um dos fundadores da instituição.

Empresário da hotelaria, Tsahi Greenhut divide seu tempo entre os afazeres da pousada que administra e o voluntariado, contribuindo com a transformação social do lugar onde vive e trabalha. “Nosso projeto aqui não é apenas com a pousada, é com a comunidade e isso nos dá muito prazer. A gente acredita que cada empresa precisa ajudar a comunidade de alguma forma. A gente tenta dar o exemplo a outras empresas que estão vindo se instalar aqui”, declarou Tsahi.

A pousada dele integra a Rota Ecológica, destino turístico existente ao longo do litoral dos municípios de Porto de Pedras, São Miguel dos Milagres e Passo do Camaragibe, caraterizado por meios de hospedagem de baixa densidade (poucas unidades habitacionais) que oferecem serviços personalizados em meio à exuberante paisagem natural da Costa dos Corais.

Antes de investir em São Miguel dos Milagres, Tsahi e a esposa fizeram incursões pela costa baiana até se estabelecerem em solo alagoano. Pensamos primeiro na Bahia, mas a gente viu que está saturado demais lá. A gente pesquisou e começamos a viajar em direção ao Norte até encontrarmos São Miguel dos Milagres. Esse é o lugar pra gente morar! As pessoas são muito receptivas, querem ajudar umas às outras”.

Novos projetos estão em mente

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O conselheiro do Instituto Yandê, Tsahi Greenhut, fala que há outros projetos sendo elaborados pela instituição, mas que para isso vai precisar da colaboração de mais voluntários e empresas dispostas a ajudar. Atualmente, para manter o projeto, são investidos, mensalmente, R$ 4 mil.

“Qualquer pessoa pode contribuir com uma ideia, com a vontade de ajudar, sempre em parceria; será bem-vindo. É importante que o pessoal saiba que aqui é aberto à comunidade e quem quiser entrar em parceria estamos abertos a todos, desde o pequeno ao grande”, destacou.

A pedagoga Geisa Andrade deseja levar os livros produzidos na oficina de leitura para outros recantos. Atualmente, as “publicações” ficam expostas na sede do Yandê e são levadas às feiras do gênero, como ocorreu recentemente em Maceió e Marechal Deodoro.

“Queremos avançar um pouquinho esse ano, claro, com o apoio de nossos parceiros. Desejamos levá-los para a grande feira do livro em Olinda. Essa é nossa meta deste ano: avançar um pouquinho em nossas caminhadas”, afirmou a pedagoga.

AÇÕES EM DESENVOLVIMENTO

Confira os projetos executados pelo Instituto Yandê:

» CURSINHO PRÉ-VESTIBULAR – É um projeto anual que tem como objetivo atender jovens e adultos que desejam ingressar no ensino superior. Os professores envolvidos lecionam voluntariamente.

» OFICINA DE LEITURA, ESCRITA E CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS -Tem como objetivo incentivar a descoberta do prazer de ler e escrever. Com a orientação de uma pedagoga, crianças e jovens exploram um acervo de livros infanto juvenis. Nesse ambiente, os alunos contam as suas próprias histórias através de livros de pano, artesanalmente ilustrados e costurados por eles.

» INCLUSÃO DIGITAL – Oferece aulas de informática gratuitas para a população local e concede à comunidade o direito de acesso à informação através da tecnologia.

» MOVIMENTO CIDADE VERDE – Tem como principal objetivo preservar o meio ambiente através do engajamento dos diferentes atores sociais dos três municípios. O projeto desenvolve mostras de filmes ambientais, palestras, mutirões de limpeza de praias e manguezais, capacitação de educadores e debates em espaços públicos como praças e fóruns.

» OFICINA PEIXE-BOI & ARTE – Beneficia artesãs que produzem e comercializam souvenirs do peixe-boi em tecido e pelúcia. O Yandê oferece apoio à oficina em forma de consultoria e cessão de espaço.

SERVIÇO

E-mail:

institutoyande@gmail.com

Página social:

www.facebook.com/institutoyande

Telefone: 82 3295-1215

End.: Av. Felisberto de Ataíde s/n. S. Miguel dos Milagres, AL 57940-000

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