Santo Daime: a consagração
   Severino  Carvalho  │     19 de janeiro de 2013   │     9:07  │  5

Doutrina do Santo Daime é praticada em Japaratinga (Fotos: Ailton Cruz)

Aprendi nos bancos da faculdade de Jornalismo, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que o texto informativo não deve ser redigido em primeira pessoa. Na composição, deve-se seguir o esquema clássico, o da pirâmide invertida:alimenta-se o início da reportagem com os fatos mais relevantes, e o conteúdo dos parágrafos que se seguem vai decrescendo em importância. Em dez anos de profissão, deixo de lado, agora, esse modelo, para narrar o dia em que fui repórter e personagem.

Espero não ser mal interpretado, nem pelos adeptos e simpatizantes, tampouco pelos que são radicalmente contra o uso religioso do Ayahuasca, chá também conhecido como santo-daime. Recorro novamente aos ensinamentos acadêmicos, estes aprendidos nas cadeiras de Sociologia e Antropologia, de que é preciso despir-se de todo e qualquer preconceito a fim de entender o que está em nossa volta – e muitas vezes além dela – para bem informar a sociedade.

A doutrina cristã do Santo Daime apresentou-se a mim ainda em 2005, por meio de uma fonte jornalística. Soube da prática religiosa em Japaratinga, Litoral Norte de Alagoas, e me interessei a fazer uma reportagem. Pedi-lhe para intermediar as conversas no sentido de elaborar a pauta jornalística e executá-la. Reportagem marcada uma, duas, três vezes… E eu não fui. Na época, confesso que me senti despreparado espiritual e psicologicamente.

Cinco anos depois, com o assunto em voga por causa da tragédia das mortes do cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni, o espírito jornalístico falou mais alto. Sugeri a pauta à redação, que foi de imediato aprovada, mas com uma condição: eu deveria passar pela experiência de consagrar – ingerir a bebida de gosto amargo e coloração marrom.

Topei. Conto agora o que senti nessa experiência.

Praticantes se preparam para o início do ritual

Na data e horário combinados me apresentei no Sítio do Bacurau, onde está encravada, no alto de um morro, a Igreja Flor de Jasmim. Um lugar bucólico e que muito lembra um bosque. Fui recebido pelo bancário Tiago de Paula, 32, o mesmo que eu havia entrevistado uma semana antes. Entregou-me um questionário com perguntas do tipo: você tem alguma doença grave? Faz uso de remédios controlados? É dependente químico? Ouve vozes? Depois, entendi que mais do que um questionário, aquele documento era uma espécie de termo de responsabilidade, que eu assinei.

Era dia de Concentração, ritual que ocorre no décimo quinto e no trigésimo dia de cada mês. É dedicado aos cânticos, hinos do Mestre Irineu (fundador da doutrina) e de seus discípulos, embalados pelo violão, maracás, pandeiro e a marcação do tam-tam (tambor). A igreja foi construída em formato de oca, cujo teto possui uma tampa móvel suspensa por uma corda fixada a um contrapeso. No céu, uma lua cheia sem tamanho brilhava entre nuvens brancas, espaças, e nos banhava de luz.

Em cada pilar de madeira, uma imagem diferente que traduzia o sincretismo religioso que é o Santo Daime: São Jorge, Iemanjá, Mestre Irineu, Madrinha Rita, Nossa Senhora da Conceição…

Dispostos em torno da mesa em formato de estrela, estavam os praticantes. Do lado direito, as mulheres; do esquerdo, os homens. Elas vestiam saia longa e camisa branca; eles, camisa de mangas compridas, gravata e calça. Orientado previamente, também saí de casa vestindo branco e calça jeans. Os veteranos ostentam no peito uma Estrela de Davi, adornada por uma águia e a lua, símbolos do Santo Daime.

Sobre a mesa, repousava o chá

Na mesa central, repousava o chá trazido, cuidadosamente, numa jarra. A mesma bebida, porém mais escura, estava noutro recipiente: uma prosaica garrafa pet de 500 ml, pela metade. “Tem gente, como eu, que prefere esta, mais forte”, disse Janaína Vieira, 29, que conduz os trabalhos e fica responsável pela guarda do Daime.

COMEÇA O RITUAL

O ritual é aberto com o Sinal da Cruz, seguido de três Pais-nossos e três Ave-Marias. Forjado em berço católico – apesar de não frequentar a Igreja regularmente – senti confiança e refleti nas palavras: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, ali Eu estarei”. Homens e mulheres perfilaram-se para comungar (no sentido de compartilhar) do chá. Vi o pequeno Miguel, de apenas 5 anos, filho de Janaína, tomar a sua porção e me encorajei; afinal, se uma criança faz uso, por que não posso fazê-lo?

Fui o último da fila e ao receber o cálice virei em dois amargos goles, suavizados pela frutose de uma uva, cuja porção estava disposta numa pequena tigela para aquele fim. Os hinos começaram a ser executados. Seria o primeiro de uns quarenta ou mais – não lembro bem– que cantaríamos no transcorrer de quase cinco horas de ritual, iniciado por volta das 22 horas da última terça-feira.

Procurei interagir e fui acompanhando os cânticos de três a sete estrofes. As letras falam do respeito para com os irmãos, com a natureza, da sabedoria de ouvir mais e falar menos. Condenam a calúnia e a arrogância. São mantras que pregam o autoconhecimento. Vinte minutos depois de consagrar o chá, senti uma leve dormência nos braços e a sensação de relaxamento, mas continuava lúcido, acompanhando o hinário, estrofe após estrofe.

Pensei: “A dormência deve ser o efeito placebo, estou consciente, esse chá não vai me pegar”. Depois de uma hora, mais ou menos, foi feita uma pausa para ingressarmos na Concentração. A designação já fala por si só. Antes, todos voltam a beber do chá. Fui convidado. Relutei. Já sentia um leve desconforto estomacal e não queria acentuá-lo. Tiago insistiu: “Tome deste mais forte para enxergar as luzes”. Aceitei.

Engoli num só trago. O gosto era ainda mais amargo. Uma uva, voltei a sentar. As luzes elétricas foram apagadas. As velas e a lua eram as fontes, agora. No silêncio, amplifica-se o som da natureza. Mesmo no alto, conseguia ouvir o mar lá embaixo, a quebrar na praia de Japaratinga. Escutava também o som da mata: os grilos, as aves noturnas e o bater das asas das cigarras que passavam como bólidos, zunindo. Os sentidos se aguçam. O cheiro de jasmim paira.

Procurei não canalizar pensamentos, apenas fechei os olhos e esperei. Luzes multicoloridas começaram a quebrar a escuridão, brandas de início. Depois, as cores começaram a se acentuar até chegarem em profusão. Era uma verdadeira chuva de granulado de cores vívidas, granulados de cobrir brigadeiro que num momento se faziam cortina e, noutro, fluxos. Senti-me alegre, eufórico, mas me contive.

Abri os olhos e vi que todos estavam compenetrados, de olhos fechados, e eu não queria entrar em desarmonia. Cerrei os olhos novamente e me senti ainda mais entorpecido. Sustentei a cabeça – uma tonelada – com as duas mãos e os cotovelos fixados nas pernas em busca de apoio. Tive, posteriormente, a sensação de que estava levitando.

Os hinos voltaram, e eu em transe. Não sabia se estava dormindo ou acordado. Tentei buscar a sobriedade, “rebuscando a consciência com medo de viajar”, como canta Zé Ramalho na música Avohai, mas já era tarde. Comecei, então, a ficar aflito. Era como tentar despertar e não conseguir. Roguei a Deus! Ao Senhor Jesus! Pedi perdão pelos meus pecados, agradeci às graças alcançadas.

Num instante, pensei: tenho de me acalmar e esperar o efeito da “peia” passar. Eu estava sendo açoitado espiritualmente. Enfim, abri os olhos e respirei fundo. Alguns me notaram.

O (DES)CONFORTO

Ao fundo, este blogueiro bebe o chá do Santo Daime

Lembrei que Tiago havia me aconselhado a procurar o banheiro, em caso de sentir-se mal. O desconforto estomacal era ainda maior. Levantei e dei uns cinco passos. Movimentava-me como um pêndulo. Confesso que nessa vida já enfrentei algumas carraspanas homéricas, mas nada se compara ao que senti naquela noite.

E veio o hino: “Chamo a força/

eu chamo a força / A força vem nos

amostrar / Treme a Terra e Balanceia

/ E Vós não sai do seu lugar”.

Entendi que a cadeira branca era meu porto seguro, voltei e tentei relaxar. Dezenas de minutos depois – perdi a noção do tempo – estava mais sóbrio e fui até o banheiro. Para chegar até lá é preciso percorrer uma picada em meio às arvores e plantas. Fui direto à privada, agarrei-a com força e vomitei. O suor excessivo… E a sensação de alívio, uma espécie de catarse. “É você colocando as coisas ruins pra fora, fazendo uma limpeza em seu interior”, disse-me, depois, um daimista.

Higienizei-me. Meu rosto no espelho refletia pupilas dilatadas. Escutei quando Alexandro Santos, que também foi meu entrevistado, perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que estava melhor. Ele sorriu, eu também. Ofereceu-me água e creme dental. Voltei ao recinto e os hinos seguiram com outra parada de uma hora para Concentração.Os daimistas voltavam a beber do chá, três, quatro, cinco vezes durante a cerimônia. A jarra já estava abaixo da metade. Fiquei impressionado.

Fui convidado a consagrar novamente, mas a minha experiência com o Ayahuasca havia chegado ao fim. Fiquei ali, observando: todos serenos, meditando. Nenhum sinal de exaltação, comportamento esquisito, nada. Só o silêncio.

Agora, sentia-me novamente confortado e ainda mais no momento em que começou a oração da Consagração: “Há uma só presença aqui, é a presença do amor. Deus é amor que envolve todos os seres num só sentimento de unidade”. Na reta final do trabalho, vieram os bailados. Dançavam, suavemente, valsas e uma espécie de baião – dois pra lá, dois pra cá – formando um círculo, mas todos separados uns dos outros. Como apenas Alexandro estava na percussão, arrisquei tirar algum som do pandeiro e segurei o ritmo. Foi divertido.

Conseguia tocar e ao mesmo tempo dançar. Justamente no último hino, intitulado “Flor das Águas”, peneirou uma chuva miúda. “É para lavar”, disse uma daimista sentindo-se abençoada. A cerimônia terminou como havia começado: sinal da Cruz, três Pais-nossos e três Ave-Marias sempre seguidas pela saudação: “Amém Jesus, Maria e José”.

Janaína agradeceu a todos e ainda pela presença da visita – eu. Fui abraçado por todos e convidado a voltar. Também agradeci principalmente pela forma carinhosa e respeitosa com que fui tratado. Relatei ter sido uma experiência jamais vivida, única, e que vai ficar guardada pelo resto de minha vida. Para finalizar, extraí um trecho de um dos hinos de Padrinho Sebastião, discípulo de Mestre Irineu. Confesso que não repetiria a experiência, mas aí vai o recado:

“O valor que o Daime tem /

Eu vou esclarecer / Se tiver alguém

que duvide / Tome o Daime

pra ver”.

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COMENTÁRIOS
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  1. Fabrícia Zara

    Meu querido amigo,
    Estou realmente muito orgulhosa do brilhante profissional que você se tornou. Matéria muito boa. Parabéns.

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  2. C.V

    Olá, me identifiquei com vc pois também passei pela mesma experiência, e confesso que foi impactante e até traumatizante. Esse desespero de não saber se vai voltar é mesmo muito ruim… Parabéns pela matéria.

    Reply

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