Santo Daime: regras e cuidados
   Severino  Carvalho  │     18 de janeiro de 2013   │     16:29  │  2

O governo brasileiro oficializou, em 26 de janeiro de 2010, as regras para o uso religioso do Ayahuasca

Paulo Campos Dias é psicoterapeuta com especialização em dependência química pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pela Fundação de Incentivo à Pesquisa em Álcool e Drogas (Fipad) do Rio Grande do Sul.

Ele classifica o chá Ayahuasca como uma droga perturbadora do sistema nervoso central, uma substância psicotrópica. Revela que os estudos voltados aos danos provocados ainda são incipientes, mas apesar disso alerta que o uso do chá pode precipitar e até piorar quadros mentais de indivíduos portadores de esquizofrenia ou de transtorno bipolar.

“Por ter como componente a DMT (dimetiltriptamina) e também alguns alcaloides reconhecidos como IMAO (inibidores da monoaminaoxidase), e como tal uma substância alucinógena, o chá tende a fazer muito mais mal do que bem para quem o consome”, alerta o psicoterapeuta.

Indagado se o consumo do santo-daime pode provocar um comportamento agressivo, ele respondeu que não existe uso seguro de nenhum tipo de droga que atua no sistema nervoso central, seja experimental, recreativo ou abusivo. “Para algumas pessoas que são predispostas a quadros de violência, ou a quadro depressivo ou psicótico, o uso do chá do Daime poderá precipitar quadros de agressividade contra terceiros ou contra a si próprio, no caso de indivíduos com tendência à depressão”, explicou.

Porém, Campos destaca que alterações mentais – como distorções de visão, de audição e também do tato – são passageiras quando da ingestão da bebida e não há relato de que haja danos permanentes em pessoas consideradas saudáveis. Campos revela ainda que quadros de dependência psicológica são os mais comumente encontrados em quem faz o uso do Ayahuasca.

“As pesquisas científicas não são ainda conclusivas com relação à indução de um quadro de dependência em quem não é dependente.Temos encontrado pessoas que já eram dependentes químicas com o uso de outras substâncias, como álcool, cocaína, entre outras, e fizeram a substituição dessas drogas pelo uso do chá. Esses indivíduos mostram ainda hoje dificuldades em deixar o chá”.

Sobre a utilização do Ayahuasca para curar dependentes químicos, o psicoterapeuta cita que alguns modelos de tratamento falam do uso da bebida como uma droga substituta de outra droga. Em outras palavras: deixa-se uma sustância lícita ou ilícita,substituindo-a por outra.

“Enquanto doença tratável, existe consenso de que todo dependente químico só é considerado um dependente em recuperação quando está com o rganismo limpo de qualquer substância psicoativa, incluindo aí o chá do Daime”. O debate sobre os supostos perigos do chá ocorre desde sua popularidade, nos anos 80.

Regras

O governo brasileiro oficializou, em 26 de janeiro de 2010, as regras para o uso religioso do Ayahuasca, utilizado principalmente em cerimônias religiosas. A resolução, publicada no Diário Oficial da União, entretanto, proíbe o comércio e propagandas do composto, que só poderá ser cultivado e transportado para fins religiosos e não lucrativos.

Além disso, a norma coíbe o uso do chá com outras drogas e em eventos turísticos. Também oficializa um cadastramento facultativo das entidades que o utilizam. O texto recomenda ainda que as entidades façam uma entrevista com aqueles que forem ingerir o chá pela primeira vez e evitem seu uso por pessoas com transtornos mentais e por usuários de outras drogas.

O texto referenda as conclusões de um grupo de trabalho multidisciplinar instituído em 2004 pelo governo para estudar o uso religioso do chá. Não havia impedimento para a aplicação do composto em cerimônias religiosas, mas faltavam orientações para evitar o uso indevido, o que o grupo publicou em 2006.

Em 1985, a bebida chegou a ser proibida no País, mas liberada dois anos depois,quando estudos demonstraram a importância de seu uso religioso. No início dos anos 90, houve nova tentativa de proibir o chá, também refutada. Em 2002, mais uma vez, houve denúncias de mau uso do chá, o que gerou os estudos mais recentes.

Na próxima postagem, narro o que senti ao beber do chá.

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COMENTÁRIOS
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  1. Eduardo Golbspan

    Usei um chá por mais de um ano. O chá traz o usuário a um estado de fascinação. Acredita-se que sem o chá não se tem os insights necessários para conduzir a vida com a sabedoria proporcionada pelo poder inerente ao seu uso e pelo contato com os espíritos.

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