Monthly Archives: janeiro 2013

Começa o resgate das ruínas do Mosteiro de São Bento
   Severino  Carvalho  │     28 de janeiro de 2013   │     16:32  │  2

Arqueólogos fazem sondagens no entorno da igreja (Fotos: Severino Carvalho)

Ruínas remetem à destruição, modificação a um estado pior. Contudo, o que sobrou de uma estrutura do século 18, com paredes rachadas –  entranhas expostas num pedido de socorro – tem muito a dizer sobre uma época importante da história de Alagoas. Em busca desse passado, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu início à pesquisa arqueológica emergencial das ruínas da igreja (mosteiro) de São Bento, no distrito homônimo, em Maragogi.

Uma equipe multidisciplinar formada por 12 profissionais – entre arqueólogos, historiadores, turismólogo, arquiteta, médico e enfermeira – está imbuída na missão de resgatar esse capítulo da história que mistura religiosidade, cultura e reafirmação social. Os trabalhos começaram ainda em dezembro, com a elaboração do projeto e as visitas técnicas, e devem ser encerrados em junho.

Os profissionais integram a empresa catarinense Sapienza, Arqueologia e Gestão do Patrimônio, que venceu a licitação aberta no ano passado pelo Iphan. “O projeto está orçado em aproximadamente R$ 192 mil e já era um desejo antigo do Iphan em Alagoas, mas não tínhamos recursos”, informou o arqueólogo do Instituto, Henrique Pozzi.

Ele explica que os profissionais estão engajados na pesquisa arqueológica – a primeira realizada em Maragogi pelo Iphan – e apresentarão, ao final dela, uma proposta de escoramento das ruínas e, talvez, de restauração, hipótese menos provável em função do avançado estado de deterioração da estrutura. “Eles apontarão uma proposta para consolidação, ou seja, preservação das ruínas e a melhor forma de como utilizar o espaço para uso futuro”, pontuou Pozzi.

A arqueóloga Deisi Scunderlick Eloy de Farias, da Sapienza, fornece detalhes sobre a pesquisa. Segundo ela, o trabalho foi dividido em três pontos. O primeiro se concentra no resgate dos esqueletos que estão sepultados no entorno da igreja. Esse trabalho, inclusive, foi iniciado na semana passada. Era comum naquela época sepultar os religiosos (padres e monges) dentro das igrejas. Por isso, há também diversos túmulos no interior do que sobrou do templo. “Na parte externa os esqueletos são mais recentes”, contou Deisi, lembrando que no entorno ainda funciona um cemitério.

Arqueóloga mostra túmulo profanado

O outro ponto da pesquisa diz repeito ao diagnóstico das ruínas da antiga igreja, cuja arquitetura é do século 18, mesclada com traços de períodos subsequentes. “Você tem mistura de argamassa, pedras, tijolos e até pedaços de arrecifes. Estamos diagnosticando todas as paredes para que possamos, mais tarde, efetivar um escoramento e até uma restauração, se possível”. Mas a arqueóloga não acredita nesta possibilidade.

“Há possibilidade de se manter um bloco-testemunho onde a memória, a história daquele monumento ficará preservada”, avaliou. Segundo ela, as convenções da Unesco e do Iphan não permitem a reconstrução da igreja em ruínas, apenas preservar as estruturas que restaram.

Educação patrimonial 

Arquiteta colhe dados do que sobrou da igreja de São Bento

Olhar atento, as pequenas Camila Isabel Morato, 11 anos, e Ana Maria Barros, 12, acompanham o trabalho dos arqueólogos a identificar e remover os inúmeros esqueletos enterrados no entorno da igreja de São Bento, conhecida popularmente como mosteiro. O lugar mexe com o imaginário da criançada, que costuma brincar por ali. “Isso é muito interessante. Eu tenho curiosidade em saber quem são essas pessoas e o que faziam aqui”, disse Camila.

Muitos ainda não têm ideia da importância social, cultural e religiosa que o mosteiro de São Bento possui para aquela comunidade. Por isso, o terceiro ponto do trabalho desenvolvido pela Sapienza é justamente promover a educação patrimonial, possibilitando também a difusão dos relatos orais entre os mais velhos e as novas gerações.

Da imagem de São Bento ficou apenas a foto emoldurada, diz Rosália

Uma das mais antigas moradoras do lugar, dona Rosália Maria dos Santos, 84 anos, sabe tudo e um pouco mais sobre a historia do mosteiro. Ela conta que com o fechamento da igreja, há cerca de 40 anos, o templo foi se deteriorando e começou a ser alvo de vândalos; depois, de caçadores de tesouro. O primeiro ato de vandalismo foi o roubo da imagem de São Bento “pequeno”, padroeiro do então povoado. Restou apenas um foto emoldurada.

“O povo pensava que tinha dinheiro ali e foi cavando, cavando até por baixo dos altares, por todos os cantos. O povo arrancou até as portas da antiga igreja”, recordou Rosália. O pai dela, Alfredo Estanislau, doou um terreno na orla do povoado e o padre José, à época, erigiu uma nova capela, existente até hoje no distrito.

Foi para lá que o religioso conduziu as imagens restantes: São Miguel, São Bento, Nossa Senhora e  o Cristo crucificado.  “Estavam derrubando tudo, não tinha mais o que fazer, então o padre trouxe as imagens pra cá”, disse Rosália, medalha de São João Batista pendurada no pescoço e muita fé no coração.

O abandono seguido do vandalismo reduziram o mosteiro de São Bento a ruínas. Quando botijas (tesouros antigos) foram encontradas em vias públicas na cidade, durante escavações para instalação do sistema de saneamento básico, em 2004, houve grande correria de caçadores de tesouros a Maragogi. Eles também estiveram no mosteiro de São Bento, onde abriram túmulos em busca de riquezas, vilipendiando os esqueletos deixados à mostra.

Objetivo é fazer a consolidação das ruínas, preservado-as

“Existiram algumas intervenções posteriores que podem ter afetado a igreja, mas elas não conseguiram estragar o monumento. Este se estraga quando para de ser utilizado e já não se faz um trabalho de manutenção permanente que é fundamental”, observou a arquiteta Maria Matilde Villegas Jaramillo.

Por tudo isso, a arqueóloga Deisi Scunderlick considera importantíssimo o trabalho de educação patrimonial que já começou a ser desenvolvido por meio de oficinas, palestras, cursos e atividades lúdicas.

“Aqui era um ponto de fé, de encontro da comunidade. As pessoas vinham do centro de Maragogi para participar das festas em São Bento. No momento em que a igreja começou a cair, as festas acabaram. A comunidade hoje não possui nenhum laço com esse patrimônio. Queremos que essas ruínas continuem a ser um patrimônio e que os moradores possam, de alguma maneira, usufruir disso através do turismo, da religiosidade”, declarou Deisi.

Projetos

Mesmo em ruínas, mosteiro atrai turistas

As ruínas do mosteiro de São Bento – ou da igreja – não se sabe ao certo, sempre atraíram os olhares de turistas e nativos de Maragogi. Para acessar o local, é preciso se dirigir ao distrito homônimo, o maior do município litorâneo. São dois caminhos igualmente tortuosos e com subidas íngremes, sobretudo o acesso que tem uma das ladeiras pavimentadas a paralelepípedos.

Mas não se engane: existe apenas um pequeno trecho calçado. Depois de vencido, resta caminhar em estrada de chão batido que, quando chove, vira lama. A comunidade, fragilizada sócio e economicamente, não colabora com a limpeza do local e o visitante pode se surpreender, às vezes.

É recomendável fazer o trajeto a pé ou em veículo apropriado, do tipo traçado. Pode-se também alugar um buggy na cidade, combinar o preço e fazer a visita. A recompensa dos perseverantes, porém, virá no topo do morro, onde encontram-se as ruínas. De lá, tem-se uma das mais belas visões do litoral alagoano: o mar no horizonte, a moldura do continente, o vasto coqueiral a tremular.

O albor do dia lança luzes em tons variados, do brando ao intenso, gerando contrastes incríveis. O pôr do sol também é maravilhosamente fantástico. Há quem se arrisque subir o morro à noite e de lá assistir a lua rasgar o mar e espalhar luz sobre o espelho d’água. Tudo isso acontece num local sem a mínima estrutura.

Há dois anos e nove meses, sempre no dia 11, a Igreja Católica realiza a Romaria de São Bento, quando fieis conduzidos pelo arcebispo de Maceió, Dom Antônio Muniz, caminham em direção às ruínas, onde é celebrada missa campal. Em outubro de 2012, quando da realização de mais uma procissão, Dom Muniz anunciou a intenção de se fazer a consolidação da estrutura e erigir um anfiteatro.

Igreja faz, a cada dia 11, a Romaria de São Bento

“O trabalho seria de consolidar as ruínas, preservando-as. Descendo, na parte baixa, pretendemos construir um grande anfiteatro onde faríamos esse tipo de celebração religiosa e também apresentações culturais”, disse Dom Muniz, em entrevista à Gazeta.

O mosteiro era uma espécie de base de apoio aos frades beneditinos que circulavam entre Pernambuco e Alagoas, em suas missões, no século 18. “A primeira paróquia em território alagoano foi erguida em Porto Calvo, em 1610, aqui pertinho. Essa estrutura (onde ficam as ruínas) foi criada justamente para se chegar a Porto Calvo e a Paripueira, uma espécie de parada para o descanso”, explicou Dom Muniz.

O secretário municipal de Cultural, Jádson Almeida, o “Jacó”, revelou que a ideia da prefeitura é aproveitar a área do entorno e edificar ali um equipamento que gere visitação:um monumento ou até um mirante.

“Nossa intenção é transformar o local não só em ponto para a realização de atividades culturais, mas, também, que sirva de atrativo turístico”, destacou o secretário.Ele pretende ainda implementar junto àquela comunidade o projeto de gestão de resíduos sólidos que deve ser estendido a todo o município.

“O resgate histórico disso aqui pode proporcionar resultados muito além das pesquisas arqueológicas. É muito importante para a comunidade ter um amalgamante cultural”, considerou o arqueólogo Alexandro Demathé.

 Setor turístico

Arqueólogos identificam esqueletos no entorno da igreja

A pesquisa arqueológica emergencial das ruínas da igreja (mosteiro) de São Bento deixou o trade turístico de Maragogi entusiasmado. O hoteleiro Márcio Vasconcelos, proprietário do Salinas do Maragogi All Inclusive Resort, se dispôs, em entrevista à Gazeta de Alagoas, a colaborar com o projeto.

“A restauração é uma questão de reconstruir nosso patrimônio com profunda ligação com nossa história desde a invasão holandesa. O mosteiro de São Bento foi construído de costas para o mar para permitir a comunicação, alinhada segundo a história, com a Igreja Matriz de Porto Calvo”, revelou Vasconcelos.

Apaixonado por artes sacras e por História do Brasil, ele recorda que a construção da igreja de Nossa Senhor da Glória, em Porto de Pedras, foi iniciada por seus antepassados. “Contribuí com todo o cimento para participar de cada pedaço da edificação o que também proponho para o nosso mosteiro. Vamos reconstruir em toda plenitude e beleza. Cabe inicialmente um levantamento do projeto arquitetônico via fotos e arquivo do Patrimônio Histórico em Recife. Irei neste final de semana ao Mosteiro em Olinda para ver o que consigo encontrar”, propôs, entusiasmado.

A presidente da Associação do Trade Turístico de Maragogi e Japaratinga (Ahmaja), Vergínia Stodolni, é outra defensora do projeto. Ela recorda que a proposta de resgatar o mosteiro sempre esteve na pauta da entidade.

“Em todas as reuniões, nos planos de ações governamentais, sempre relacionamos o resgate do mosteiro de São Bento como prioridade”, destacou Vergínia, ressaltando o papel fundamental do arcebispo Dom Antônio Muniz na consolidação do projeto que se encontra em execução.

Fonte: Gazeta de Alagoas (Sucursal Maragogi)

 

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Revista Viagem recomenda praias da Costa dos Corais
   Severino  Carvalho  │     24 de janeiro de 2013   │     11:46  │  0

A exuberante Praia do Patacho, em Porto de Pedras, é destaque nacional (Fotos: Severino Carvalho)

Como dizem por aqui: a “Costa dos Corais não é bonita, não: se amostra!” A exuberante região litorânea ao Norte das Alagoas continua a encantar turistas e a imprensa nacional especializada. A edição 207 da revista Viagem e Turismo (VT), da editora Abril, deste mês de janeiro, traz uma relação de 36 praias de “arrasar no Brasil”.

Com o auxílio do Guia Brasil, a VT selecionou os destinos de praia para o leitor curtir o verão. Elas foram divididas em categorias: Hours Concours; Urbanas; Refúgios; Para ver Peixinhos; Sem Marquinhas; Ondas e Garotas; Meio Ibiza, Meio Saint Tropez; Foto Perfeita e Ventos me Levem.

Praia de Carro Quebrado, em Barra de Santo Antônio: falésias multicoloridas (Carlos Rosa)

E aí vem a boa notícia! Três praias da Costa dos Corais apareceram na lista em duas categorias. Patacho, em Porto de Pedras, foi destaque na categoria Hours Concours. A VT lembra que, na maré baixa, a praia, frequentada comumente por casais, forma piscinas naturais de águas mornas perfeitas para o banho.

A publicação cita, como dica de hospedagem, as pousadas do Patacho ( www.pousadapatacho.com.br ) e Pousada do Toque ( www.pousadadotoque.com.br ), em São Miguel dos Milagres. “Paleta de tons inverossímeis na Praia do Patacho” é a legenda da foto que mostra o exuberante mar da Costa dos Corais decorado por um jangada de pesca.

A revista só se confundiu com a localização da praia do Patacho, que fica em Porto de Pedras e não em São Miguel dos Milagres. Mas tudo bem, o Patacho situa-se na Costa dos Corais, um dos destinos que mais crescem e agradam no Brasil e no mundo.

Praia do Patacho, na maré baixa, forma piscinas naturais

As praias de Carro Quebrado, em Barra de Santo Antônio, com suas falésias coloridas, e Pratagy, a 24 km de Maceió, surgem na categoria “Refúgio”. Pra fechar o pacote, a maceioense Ponta Verde, eleita a praia mais bonita do Nordeste, é destaque entre as urbanas brasileiras. Mais informações: www.viajeaqui.abril.com.br

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Hoteleiros comemoram bom desempenho em premiação
   Severino  Carvalho  │     21 de janeiro de 2013   │     9:40  │  0

Pousada do Caju, em São Miguel dos Milagres (Foto Severino Carvalho)

A hotelaria da Costa dos Corais alagoana foi destaque na mais importante premiação do Tripadvisor, um dos maiores sites de viagens do mundo. A divulgação da lista com os hotéis mais bem avaliados pelos internautas no ano passado foi divulgada na quarta-feira (16) e apresentou três empreendimentos situados no Litoral Norte do Estado: duas pousadas, em São Miguel dos Milagres, e um resort, em Maragogi.

Para a secretária de Estado do Turismo, Danielle Novis, a região da Costa dos corais – segundo polo turístico e hoteleiro de Alagoas- está recebendo o reconhecimento merecido do público. “Essa classificação é muito importante e reflete o comprometimento dos empresários com o destino”, afirmou Novis.

Na categoria “pousadas e acomodações”, a Pousada do Caju, em São Miguel dos Milagres, ficou em primeiro lugar no âmbito nacional. O estabelecimento hoteleiro situa-se na praia do Toque e existe há seis anos. A pousada integra a chamada Rota Ecológica, um conjunto de estabelecimentos hoteleiros de baixa densidade, com no máximo 15 unidades habitacionais, instalado ao longo do litoral de Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres.

“É um prestígio muito grande não só para nós que fazemos a Pousada do Caju, mas para todo o setor hoteleiro de Alagoas. É uma prova que o trabalho bem feito, valorizando os trabalhadores da própria região, pode render bons resultados”, declarou Alírio Covas, sócio-proprietário. Em terceiro lugar, na mesma categoria, ficou a Pousada da Amendoeira, também em São Miguel dos Milagres

Quando o tema foi “melhores hotéis do Brasil”, o Salinas do Maragogi All Inclusive Resort abocanhou o terceiro lugar. Em dezembro, o Salinas recebera do Tripadvisor, o certificado de excelência pelos serviços e acomodações disponibilizados aos seus hóspedes em 2012.

O gerente-geral do Salinas, Ricardo Almeida, afirmou que o reconhecimento do Tripadvisor é muito importante e verdadeiro porque a avaliação é feita pelos próprios hóspedes que visitaram os hotéis citados.

“É a opinião mais valiosa que pode existir, porque partiu de quem nos visitou, daqueles que espontaneamente dedicaram parte do seu tempo para nos avaliar e compartilhar suas experiências. Temos, a partir de agora, um novo desafio: a responsabilidade de manter e melhorar ainda mais”, disse Almeida, para depois cobrar infraestrutura ao poder público.

“O momento é também de reflexão sobre nossas carências estruturais como saneamento básico, rodovias, assistência médico-hospitalar. Deus nos presenteou com a natureza exuberante, com um povo hospitaleiro; precisamos fazer a nossa parte”, destacou o gerente-geral do Salinas.

O outro estabelecimento hoteleiro alagoano citado na lista foi o Kenoa – Exclusive Beach Spa & Resort, na Barra de São Miguel, Litoral Sul do Estado. Este ficou em quarto lugar na categoria luxo. O site Tripadvisor tem mais de 60 milhões de visitantes por mês, que dão nota para hotéis do mundo todo em vários quesitos.

O ranking inclui cerca de 6 mil hotéis de 82 países e é dividido nas categorias Melhores Hotéis, Mais Baratos, Pousadas & Acomodações, Luxo, Melhores Serviços e Hotéis de Pequeno Porte. São 25 hotéis em cada quesito. No Brasil, foram selecionados 121 estabelecimentos. Nenhum dos hotéis brasileiros, porém, figura na lista dos melhores do mundo. Segundo o prêmio do site, o melhor hotel do planeta fica no Havaí: o Four Seasons Resort Hualalai at Historic Ka’upulehu.

Fonte: Gazeta de Alagoas (Sucursal Maragogi)

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Santo Daime: a consagração
   Severino  Carvalho  │     19 de janeiro de 2013   │     9:07  │  5

Doutrina do Santo Daime é praticada em Japaratinga (Fotos: Ailton Cruz)

Aprendi nos bancos da faculdade de Jornalismo, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que o texto informativo não deve ser redigido em primeira pessoa. Na composição, deve-se seguir o esquema clássico, o da pirâmide invertida:alimenta-se o início da reportagem com os fatos mais relevantes, e o conteúdo dos parágrafos que se seguem vai decrescendo em importância. Em dez anos de profissão, deixo de lado, agora, esse modelo, para narrar o dia em que fui repórter e personagem.

Espero não ser mal interpretado, nem pelos adeptos e simpatizantes, tampouco pelos que são radicalmente contra o uso religioso do Ayahuasca, chá também conhecido como santo-daime. Recorro novamente aos ensinamentos acadêmicos, estes aprendidos nas cadeiras de Sociologia e Antropologia, de que é preciso despir-se de todo e qualquer preconceito a fim de entender o que está em nossa volta – e muitas vezes além dela – para bem informar a sociedade.

A doutrina cristã do Santo Daime apresentou-se a mim ainda em 2005, por meio de uma fonte jornalística. Soube da prática religiosa em Japaratinga, Litoral Norte de Alagoas, e me interessei a fazer uma reportagem. Pedi-lhe para intermediar as conversas no sentido de elaborar a pauta jornalística e executá-la. Reportagem marcada uma, duas, três vezes… E eu não fui. Na época, confesso que me senti despreparado espiritual e psicologicamente.

Cinco anos depois, com o assunto em voga por causa da tragédia das mortes do cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni, o espírito jornalístico falou mais alto. Sugeri a pauta à redação, que foi de imediato aprovada, mas com uma condição: eu deveria passar pela experiência de consagrar – ingerir a bebida de gosto amargo e coloração marrom.

Topei. Conto agora o que senti nessa experiência.

Praticantes se preparam para o início do ritual

Na data e horário combinados me apresentei no Sítio do Bacurau, onde está encravada, no alto de um morro, a Igreja Flor de Jasmim. Um lugar bucólico e que muito lembra um bosque. Fui recebido pelo bancário Tiago de Paula, 32, o mesmo que eu havia entrevistado uma semana antes. Entregou-me um questionário com perguntas do tipo: você tem alguma doença grave? Faz uso de remédios controlados? É dependente químico? Ouve vozes? Depois, entendi que mais do que um questionário, aquele documento era uma espécie de termo de responsabilidade, que eu assinei.

Era dia de Concentração, ritual que ocorre no décimo quinto e no trigésimo dia de cada mês. É dedicado aos cânticos, hinos do Mestre Irineu (fundador da doutrina) e de seus discípulos, embalados pelo violão, maracás, pandeiro e a marcação do tam-tam (tambor). A igreja foi construída em formato de oca, cujo teto possui uma tampa móvel suspensa por uma corda fixada a um contrapeso. No céu, uma lua cheia sem tamanho brilhava entre nuvens brancas, espaças, e nos banhava de luz.

Em cada pilar de madeira, uma imagem diferente que traduzia o sincretismo religioso que é o Santo Daime: São Jorge, Iemanjá, Mestre Irineu, Madrinha Rita, Nossa Senhora da Conceição…

Dispostos em torno da mesa em formato de estrela, estavam os praticantes. Do lado direito, as mulheres; do esquerdo, os homens. Elas vestiam saia longa e camisa branca; eles, camisa de mangas compridas, gravata e calça. Orientado previamente, também saí de casa vestindo branco e calça jeans. Os veteranos ostentam no peito uma Estrela de Davi, adornada por uma águia e a lua, símbolos do Santo Daime.

Sobre a mesa, repousava o chá

Na mesa central, repousava o chá trazido, cuidadosamente, numa jarra. A mesma bebida, porém mais escura, estava noutro recipiente: uma prosaica garrafa pet de 500 ml, pela metade. “Tem gente, como eu, que prefere esta, mais forte”, disse Janaína Vieira, 29, que conduz os trabalhos e fica responsável pela guarda do Daime.

COMEÇA O RITUAL

O ritual é aberto com o Sinal da Cruz, seguido de três Pais-nossos e três Ave-Marias. Forjado em berço católico – apesar de não frequentar a Igreja regularmente – senti confiança e refleti nas palavras: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, ali Eu estarei”. Homens e mulheres perfilaram-se para comungar (no sentido de compartilhar) do chá. Vi o pequeno Miguel, de apenas 5 anos, filho de Janaína, tomar a sua porção e me encorajei; afinal, se uma criança faz uso, por que não posso fazê-lo?

Fui o último da fila e ao receber o cálice virei em dois amargos goles, suavizados pela frutose de uma uva, cuja porção estava disposta numa pequena tigela para aquele fim. Os hinos começaram a ser executados. Seria o primeiro de uns quarenta ou mais – não lembro bem– que cantaríamos no transcorrer de quase cinco horas de ritual, iniciado por volta das 22 horas da última terça-feira.

Procurei interagir e fui acompanhando os cânticos de três a sete estrofes. As letras falam do respeito para com os irmãos, com a natureza, da sabedoria de ouvir mais e falar menos. Condenam a calúnia e a arrogância. São mantras que pregam o autoconhecimento. Vinte minutos depois de consagrar o chá, senti uma leve dormência nos braços e a sensação de relaxamento, mas continuava lúcido, acompanhando o hinário, estrofe após estrofe.

Pensei: “A dormência deve ser o efeito placebo, estou consciente, esse chá não vai me pegar”. Depois de uma hora, mais ou menos, foi feita uma pausa para ingressarmos na Concentração. A designação já fala por si só. Antes, todos voltam a beber do chá. Fui convidado. Relutei. Já sentia um leve desconforto estomacal e não queria acentuá-lo. Tiago insistiu: “Tome deste mais forte para enxergar as luzes”. Aceitei.

Engoli num só trago. O gosto era ainda mais amargo. Uma uva, voltei a sentar. As luzes elétricas foram apagadas. As velas e a lua eram as fontes, agora. No silêncio, amplifica-se o som da natureza. Mesmo no alto, conseguia ouvir o mar lá embaixo, a quebrar na praia de Japaratinga. Escutava também o som da mata: os grilos, as aves noturnas e o bater das asas das cigarras que passavam como bólidos, zunindo. Os sentidos se aguçam. O cheiro de jasmim paira.

Procurei não canalizar pensamentos, apenas fechei os olhos e esperei. Luzes multicoloridas começaram a quebrar a escuridão, brandas de início. Depois, as cores começaram a se acentuar até chegarem em profusão. Era uma verdadeira chuva de granulado de cores vívidas, granulados de cobrir brigadeiro que num momento se faziam cortina e, noutro, fluxos. Senti-me alegre, eufórico, mas me contive.

Abri os olhos e vi que todos estavam compenetrados, de olhos fechados, e eu não queria entrar em desarmonia. Cerrei os olhos novamente e me senti ainda mais entorpecido. Sustentei a cabeça – uma tonelada – com as duas mãos e os cotovelos fixados nas pernas em busca de apoio. Tive, posteriormente, a sensação de que estava levitando.

Os hinos voltaram, e eu em transe. Não sabia se estava dormindo ou acordado. Tentei buscar a sobriedade, “rebuscando a consciência com medo de viajar”, como canta Zé Ramalho na música Avohai, mas já era tarde. Comecei, então, a ficar aflito. Era como tentar despertar e não conseguir. Roguei a Deus! Ao Senhor Jesus! Pedi perdão pelos meus pecados, agradeci às graças alcançadas.

Num instante, pensei: tenho de me acalmar e esperar o efeito da “peia” passar. Eu estava sendo açoitado espiritualmente. Enfim, abri os olhos e respirei fundo. Alguns me notaram.

O (DES)CONFORTO

Ao fundo, este blogueiro bebe o chá do Santo Daime

Lembrei que Tiago havia me aconselhado a procurar o banheiro, em caso de sentir-se mal. O desconforto estomacal era ainda maior. Levantei e dei uns cinco passos. Movimentava-me como um pêndulo. Confesso que nessa vida já enfrentei algumas carraspanas homéricas, mas nada se compara ao que senti naquela noite.

E veio o hino: “Chamo a força/

eu chamo a força / A força vem nos

amostrar / Treme a Terra e Balanceia

/ E Vós não sai do seu lugar”.

Entendi que a cadeira branca era meu porto seguro, voltei e tentei relaxar. Dezenas de minutos depois – perdi a noção do tempo – estava mais sóbrio e fui até o banheiro. Para chegar até lá é preciso percorrer uma picada em meio às arvores e plantas. Fui direto à privada, agarrei-a com força e vomitei. O suor excessivo… E a sensação de alívio, uma espécie de catarse. “É você colocando as coisas ruins pra fora, fazendo uma limpeza em seu interior”, disse-me, depois, um daimista.

Higienizei-me. Meu rosto no espelho refletia pupilas dilatadas. Escutei quando Alexandro Santos, que também foi meu entrevistado, perguntou se estava tudo bem comigo. Respondi que estava melhor. Ele sorriu, eu também. Ofereceu-me água e creme dental. Voltei ao recinto e os hinos seguiram com outra parada de uma hora para Concentração.Os daimistas voltavam a beber do chá, três, quatro, cinco vezes durante a cerimônia. A jarra já estava abaixo da metade. Fiquei impressionado.

Fui convidado a consagrar novamente, mas a minha experiência com o Ayahuasca havia chegado ao fim. Fiquei ali, observando: todos serenos, meditando. Nenhum sinal de exaltação, comportamento esquisito, nada. Só o silêncio.

Agora, sentia-me novamente confortado e ainda mais no momento em que começou a oração da Consagração: “Há uma só presença aqui, é a presença do amor. Deus é amor que envolve todos os seres num só sentimento de unidade”. Na reta final do trabalho, vieram os bailados. Dançavam, suavemente, valsas e uma espécie de baião – dois pra lá, dois pra cá – formando um círculo, mas todos separados uns dos outros. Como apenas Alexandro estava na percussão, arrisquei tirar algum som do pandeiro e segurei o ritmo. Foi divertido.

Conseguia tocar e ao mesmo tempo dançar. Justamente no último hino, intitulado “Flor das Águas”, peneirou uma chuva miúda. “É para lavar”, disse uma daimista sentindo-se abençoada. A cerimônia terminou como havia começado: sinal da Cruz, três Pais-nossos e três Ave-Marias sempre seguidas pela saudação: “Amém Jesus, Maria e José”.

Janaína agradeceu a todos e ainda pela presença da visita – eu. Fui abraçado por todos e convidado a voltar. Também agradeci principalmente pela forma carinhosa e respeitosa com que fui tratado. Relatei ter sido uma experiência jamais vivida, única, e que vai ficar guardada pelo resto de minha vida. Para finalizar, extraí um trecho de um dos hinos de Padrinho Sebastião, discípulo de Mestre Irineu. Confesso que não repetiria a experiência, mas aí vai o recado:

“O valor que o Daime tem /

Eu vou esclarecer / Se tiver alguém

que duvide / Tome o Daime

pra ver”.

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Santo Daime: regras e cuidados
   Severino  Carvalho  │     18 de janeiro de 2013   │     16:29  │  2

O governo brasileiro oficializou, em 26 de janeiro de 2010, as regras para o uso religioso do Ayahuasca

Paulo Campos Dias é psicoterapeuta com especialização em dependência química pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pela Fundação de Incentivo à Pesquisa em Álcool e Drogas (Fipad) do Rio Grande do Sul.

Ele classifica o chá Ayahuasca como uma droga perturbadora do sistema nervoso central, uma substância psicotrópica. Revela que os estudos voltados aos danos provocados ainda são incipientes, mas apesar disso alerta que o uso do chá pode precipitar e até piorar quadros mentais de indivíduos portadores de esquizofrenia ou de transtorno bipolar.

“Por ter como componente a DMT (dimetiltriptamina) e também alguns alcaloides reconhecidos como IMAO (inibidores da monoaminaoxidase), e como tal uma substância alucinógena, o chá tende a fazer muito mais mal do que bem para quem o consome”, alerta o psicoterapeuta.

Indagado se o consumo do santo-daime pode provocar um comportamento agressivo, ele respondeu que não existe uso seguro de nenhum tipo de droga que atua no sistema nervoso central, seja experimental, recreativo ou abusivo. “Para algumas pessoas que são predispostas a quadros de violência, ou a quadro depressivo ou psicótico, o uso do chá do Daime poderá precipitar quadros de agressividade contra terceiros ou contra a si próprio, no caso de indivíduos com tendência à depressão”, explicou.

Porém, Campos destaca que alterações mentais – como distorções de visão, de audição e também do tato – são passageiras quando da ingestão da bebida e não há relato de que haja danos permanentes em pessoas consideradas saudáveis. Campos revela ainda que quadros de dependência psicológica são os mais comumente encontrados em quem faz o uso do Ayahuasca.

“As pesquisas científicas não são ainda conclusivas com relação à indução de um quadro de dependência em quem não é dependente.Temos encontrado pessoas que já eram dependentes químicas com o uso de outras substâncias, como álcool, cocaína, entre outras, e fizeram a substituição dessas drogas pelo uso do chá. Esses indivíduos mostram ainda hoje dificuldades em deixar o chá”.

Sobre a utilização do Ayahuasca para curar dependentes químicos, o psicoterapeuta cita que alguns modelos de tratamento falam do uso da bebida como uma droga substituta de outra droga. Em outras palavras: deixa-se uma sustância lícita ou ilícita,substituindo-a por outra.

“Enquanto doença tratável, existe consenso de que todo dependente químico só é considerado um dependente em recuperação quando está com o rganismo limpo de qualquer substância psicoativa, incluindo aí o chá do Daime”. O debate sobre os supostos perigos do chá ocorre desde sua popularidade, nos anos 80.

Regras

O governo brasileiro oficializou, em 26 de janeiro de 2010, as regras para o uso religioso do Ayahuasca, utilizado principalmente em cerimônias religiosas. A resolução, publicada no Diário Oficial da União, entretanto, proíbe o comércio e propagandas do composto, que só poderá ser cultivado e transportado para fins religiosos e não lucrativos.

Além disso, a norma coíbe o uso do chá com outras drogas e em eventos turísticos. Também oficializa um cadastramento facultativo das entidades que o utilizam. O texto recomenda ainda que as entidades façam uma entrevista com aqueles que forem ingerir o chá pela primeira vez e evitem seu uso por pessoas com transtornos mentais e por usuários de outras drogas.

O texto referenda as conclusões de um grupo de trabalho multidisciplinar instituído em 2004 pelo governo para estudar o uso religioso do chá. Não havia impedimento para a aplicação do composto em cerimônias religiosas, mas faltavam orientações para evitar o uso indevido, o que o grupo publicou em 2006.

Em 1985, a bebida chegou a ser proibida no País, mas liberada dois anos depois,quando estudos demonstraram a importância de seu uso religioso. No início dos anos 90, houve nova tentativa de proibir o chá, também refutada. Em 2002, mais uma vez, houve denúncias de mau uso do chá, o que gerou os estudos mais recentes.

Na próxima postagem, narro o que senti ao beber do chá.

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