Um passeio pela Trilha do Visgueiro
   Severino  Carvalho  │     2 de dezembro de 2012   │     11:23  │  1

Diante do gran Visgueiro,seu Geraldo é uma formiga (Fotos Severino Carvalho)

O  passeio pela Trilha do Visgueiro, no Assentamento Água Fria, em Maragogi, começa com uma caminhada do estacionamento, onde ficam os carros, até a “boca da mata”. Logo na entrada, um tapete de folhas e relva se estende, convidativo. Ao ingressar, a temperatura amena e os perfumes da floresta nos envolvem. À frente, Geraldo Oliveira abre caminho.

O primeiro trecho é um pouco irregular, um pequeno aclive que Geraldo classifica como um “aperitivo” para o que está por vir. Entre um passo e outro, o agricultor vai revelando os segredos da floresta.

Ele conta que o remanescente de mata atlântica é um dos mais extensos e conservados de Maragogi, abrange terras de três assentamentos da reforma agrária: Água Fria, Santa Rita e Massangana. “Foi através da Coopeagro que descobrimos o quanto é importante esse fragmento de mata, tanto pra conservação da natureza, das nascentes de água principalmente, quanto para a nossa geração de renda. A cooperativa nos ensinou a ser agricultores e a ter consciência ecológica”, disse, enchendo o peito de ar puro e de orgulho.

Vinte minutinhos de caminhada e, logo à frente, ergue-se, colossal, a árvore que oferece nome à trilha: o visgueiro. Denominação científica: Parkia pendula. Por estas bandas, essa árvore que pode atingir até 30 metros de altura reina absoluta. Em Água Fria, existem ao menos três visgueiros de grande porte, oito de médio e uma infinidade de exemplares juvenis, que assumem uma coloração avermelhada.

Faz vizinhança ao primeiro visgueiro da trilha, uma frondosa mamajuda, aponta Geraldo. A planta é da família das Eleocarpáceas (Sloanea obtusifolia), de madeira rosada, dura e pesada, utilizada em carpintaria.

Caminhada pela mata revela a beleza da mata atlântica: a mamajuda

“Essa é uma madeira nobre, muita usada na construção civil. Nessas redondezas, foi a única que sobrou para contar história. No passado, era e ainda é muito procurada”, revela o agricultor. Geraldo segue na condução e vai dando uma aula de botânica a seu modo. Mostra um tronco de uma árvore também muito procurada pela carpintaria naval e que está rareando nas matas setentrionais alagoanas, o conduru, uma espécie de jacarandá. Mas, quando vai se aprofundar no assunto, abelhas aparecerem como bólidos.

“São os donos da mata mandando a gente seguir”, brinca Geraldo.  Em frente, toda a vida, sigamos! Eis que pelo caminho surge uma gameleira. O assentado cita que a árvore também é conhecida como “braçadeira” e explica: suas sementes são depositadas por pássaros sobre a copa de outras arvores. À medida que se desenvolve, vai entrelaçando a pobre planta de quem se aproveitou, dando-lhe uma abraço de morte.

“A árvore abraçada vai morrendo, fica sequinha, sufocada”, conta. E por falar em pássaros, a diversidade é grande na Trilha do Visgueiro: sabiá, pica-pau, sete cores, sanhaçu, curió… “Se andarmos em silêncio é bem provável toparmos com outros bichos, como guandus, tatus, quatis, cotias, tejos…”

O segundo visgueiro de grosso calibre fica postado como um beque bem no meio da trilha que pode durar, em média, duas horas, incluindo as paradas. São cinco quilômetros de extensão, percorrendo uma espécie de parábola.

Visgueiro apresenta raízes grandes, expostas

“A trilha acontece em círculo para o praticante não voltar pelo mesmo caminho que entrou. Isso geraria desmotivação”, ensinou. O segundo visgueiro é ainda maior do que o primeiro. Suas raízes, expostas, parecem querer nos abraçar fraternalmente, como que agradecendo pela visita inesperada.

Essas árvores colossais são dotadas de raízes que se desenvolvem junto do tronco, acima do solo. Na primavera, pudemos apreciar a floração, pequenas e numerosas, acompanhadas por folhas modificadas, vermelhas e côncavas. Já os frutos assumem coloração escura, do tipo vagem, constituídos por bordas cobertas por uma substância viscosa.

A última atração é o gran visgueiro, um titan de madeira que não cabe dentro da máquina fotográfica, por mais que se esforce para enquadrá-lo. Suas raízes formam verdadeiros cômodos sobre o solo e se espraiam como tentáculos de um polvo lenhoso. Um espetáculo! Sentando próximo ao gigante, seu “Geraldo”, grande em espírito, é uma formiga a contemplá-lo.

Passeio termina com agradável banho de bica

“Até hoje nenhum biólogo conseguiu identificar a idade deste visgueiro, que tem cerca de 22 metros de altura. Calcula-se que possua mais de 400 anos de existência. Quando as turmas vêm fazer a trilha e chega neste ponto, se encanta com a árvore e tenta abraçá-la. São necessárias umas quinze pessoas para isso, por causa das raízes”, relata Geraldo.

A caminhada termina no ponto de apoio montado pela Coopeagro com um refrescante banho de bica, abastecida pelas águas que vimos brotar lá dentro da mata, fria, como o nome do assentamento; viva, como a mata e a trilha que se reinventa nas mãos de valorosos assentados da reforma agrária.

 

Serviço

Trilha do Visgueiro

Quem faz: Coopeagro

Onde: Sede da cooperativa, rodovia AL-101 Norte, bairro Santa Tereza Verzeri, Maragogi, Alagoas.

Contato: (82) 3296-2010

Valor: Sob consulta

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COMENTÁRIOS
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  1. Andreia Roque

    Mais que uma Trilha Ecológica um projeto comunitário que merece todo o destaque. Severino Carvalho seu texto demonstra com habilidade esta parceira natureza comunidade. Parabéns

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