A solidez do Grupo Salinas
   Severino  Carvalho  │     17 de agosto de 2012   │     13:20  │  8

Engenheiro mecânico, oficial do Exército Brasileiro, industrial, hoteleiro. O perfil de Márcio Vasconcelos Silva já dá uma mostra da versatilidade deste senhor que, aos 73 anos de idade, mantém latente a veia do empreendedorismo.

Márcio Vasconcelos: “Foram muitos anos de buraqueira, uma coisa horrível”

Visionário, ele foi um dos precursores da hotelaria em Maragogi. Numa época em que não existiam estradas, energia elétrica e nem telefone convencional, lançou as bases do colosso que é hoje o Grupo Salinas. Em julho – época de baixa temporada – os dois hotéis pertencentes ao grupo (Maragogi e Maceió) superaram todas as expectativas e bateram o movimentado mês janeiro em termos de ocupação. Amante das artes sacras, Márcio Vasconcelos manteve-se fiel a seus ideais e se prepara para a construção de mais um grande empreendimento, desta feita em Japaratinga. Nesta entrevista, confira parte da saga e do legado de Márcio Vasconcelos, o “filho da capitania”, como bem gosta de se autodenominar, em função de viver, acreditar e investir nos Estados de Alagoas e de Pernambuco.   

Como foi apostar em Maragogi, no ramo do turismo, numa época em que essa atividade ainda engatinhava?

Na verdade, nem engatinhava. Não existia ainda o destino Maragogi. Quando imaginei construir um hotel aqui, a ideia partiu de minhas andanças pelo mundo e vendo que nossa praia é uma praia de qualidade, excepcional. Você percorrendo o trecho Recife / Maceió, uma das melhores praias que existem é a praia de Maragogi. Então, veio a ideia da construção do hotel. Naquele época, existia a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e eu entrei com um projeto para captação de recursos por meio do Finor (Fundo de Investimentos do Nordeste). O projeto foi aprovado e comecei a construção do hotel. O projeto foi de autoria do arquiteto Marcos Vieira, que hoje é o presidente do Sebrae em Alagoas. Ele teve um sentimento fantástico de pegar esse trecho de terra e desenvolver um projeto que até hoje está de pé.

Quais eram as principais dificuldades naquela época para tocar uma empresa do porte do Salinas? Tenho informação que não existia sequer linha telefônica disponível.

A história da linha telefônica é um fato interessante. Existiam aqui em Maragogi umas 30 linhas telefônicas. Então, eu fui à Telasa, pedindo a instalação de uma linha telefônica aqui. Aí, disseram que não tinha. Então, fui para o mercado e comprei uma linha de uma pessoa de Caruaru, que estava indo embora. Coloquei o telefone no hotel. Três meses depois, a Telasa me chamou para perguntar o que estava acontecendo. Queria saber por que a conta do telefone era maior do que toda a cidade junta (risos).

Quando o hotel foi construído? 

Entre 1989 e 1990. A construção foi entre 1988 e 89 e nós abrimos o hotel em janeiro de 1990. Outro detalhe: energia elétrica. Aqui não tinha subestação. Eu puxei uma linha de energia da Destilaria São Gonçalo para abastecer o hotel. E estrada nem se fala. Foram muitos anos de buraqueira, uma coisa horrível. Quando o Divaldo (Suruagy) assumiu pela terceira vez o governo de Alagoas, esse trecho da divisa até Porto Calvo estava acabado, só tinha buraco. Conversei com ele e ele disse: ‘Márcio, vou começar a restauração da divisa pra cá. Então, ele deu uma melhorada substancial. Até então era uma tragédia em dó menor, com diz a história.

E mão de obra, como era naquela época?

Olhe, mão de obra tive uma facilidade muito grande porque construí a destilaria na década de 1980 e como eu era oriundo do ramo da construção civil no Recife, trouxe algumas pessoas que trabalhavam comigo na construção e aqui tive uma facilidade muito grande do pessoal da região aprender rapidamente. Então, não tive dificuldade com a mão de obra, principalmente a carpintaria.

E a mão de obra para operar o hotel?

Aí é outra história. Eu conheci um gerente do Hotel Quatro Rodas de Olinda. Esse rapaz era muito competente e eu o trouxe para aqui. Aconteceu que na época, eu tinha gerente e não tinha hotel. Quando a gente abriu o hotel, aí eu descobri que eu tinha hotel e não tinha gerente. Aconteceu uma tragédia com esse rapaz. Eu o trouxe para fazer o treinamento de pessoal, que não tinha ninguém, era quatro gatos pingados aqui, e depois eu consegui pessoas do Rio Grande do Sul e começamos a desenvolver o processo de treinamento.

Pode-se dizer que o Salinas foi a primeira grande escola de hotelaria de Maragogi?

Sem dúvidas! Ainda continua sendo, não é Ricardo? (Almeida – atual gerente-geral do Salinas Maragogi). Como eu incorporei uma formação militar, você sabe que fui oficial do Exército Brasileiro onde passei dez anos, eu tinha a ideia de como treinar e de como formar. Então, comecei a estabelecer uma proposta de treinamento e o hotel passou a ser uma escola até hoje.

Em algum momento o senhor pensou, diante de tantas dificuldades, em desistir do negócio?

Não, jamais! Eu visualizava que Recife e Maceió eram as duas cidades que trariam movimento para o hotel. Mais tarde, descobri que estava errado. Foi quando arrumei minhas malas e fui a São Paulo, onde circulei junto às operadoras e disse: eu tenho um hotel em Maragogi. As operadoras perguntavam: ‘onde fica Maragogi?’ Ninguém sabia! Mas, eu levei um bocado de fotografias, aí fiz o meu trabalho e começamos então a trazer o público de São Paulo através das operadoras de viagem para conhecer Maragogi. A partir daí, começamos um processo lento, gradual.

Quais os rumos do grupo Salinas, após os investimentos recentes na construção do Salinas Maceió e da ampliação do Salinas do Maragogi? O que o senhor pretende agora, quais os projetos? 

“O aeroporto é uma coisa fantástica para o turismo”

Estamos com um projeto pronto do Marcos Vieira (arquiteto) para um hotel em Japaratinga. Será um hotel de baixo custo. Trata-se de uma ideia que conheci lá pelos lados de Orlando (EUA) e a gente vislumbrou que esse projeto, dotado de um centro comercial, vai ter uma aceitação grande pelo público. Não será um hotel como esse aqui, será de baixo custo (para o hóspede). A pessoa vai pra lá e só terá incluso o café da manhã. Agora, ao lado, faremos um centro comercial com tudo o que se tem direito: restaurante, barzinho, centro de convenções. Você conhece Montes Verdes, em Minas Gerais? É uma cidade turística que tem um centro comercial e que passei para Marcos Vieira adequar à nossa realidade. Eu acho que é uma coisa nova, que vamos trazer para a região.

Quando essas obras começam?

Creio que em setembro. Serão 400 unidades habitacionais.

Já tem área definida?

A área é nossa. Você passa São Bento, passa a ponte, e quando se aproxima do mar, naquele trecho da rodovia, é ali. São 11 hectares de área e uma boa faixa de praia. Espero que os órgãos de Estado não perturbem, ajudem.

Como estão os dois empreendimentos hoje, o Salinas de Maragogi e do Maceió, em termos de comerciais e de aceitação pelo mercado? 

Totalmente consolidados. Hoje, a gente desenvolveu um trabalho na área comercial com metas, pessoas competentes à frente da administração. Para você ter uma ideia temos duas pessoas que já fizeram dois MBA (sigla em inglês que siginifica Mestre em Administração de Negócios), o Ricardo e Mário, e eles conseguiram montar uma estrutura que está dando um resultado muito bom. Por exemplo, o mês de julho agora, o Salinas de Maragogi fechou com 93%, ganhou do mês de janeiro e Maceió fechou com 89% de ocupação.

São números satisfatórios?

São ótimos! O turismo regional existe para as pousadas e nos períodos de feriadão. O que sustenta a gente é o turista que vem do Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil. O europeu, que nos davam um suporte muito bom nos meses de julho e agosto, desapareceram. Chegávamos a fazer mil diárias de portugueses no mês de agosto, agora não tem um.

Tem a ver com a crise no continente europeu?

É a crise econômica, cambial. Os nossos preços aqui, com a carga tributária que temos, pega direitinho.

Como o senhor avalia a construção do aeroporto de Maragogi? É uma ferramenta importante para o turismo da região?

Acredito que sim. Mas, acho que só será viabilizado se for construído também para carga. Pela proposta dos dois governadores (Alagoas e Pernambuco), criar o segmento de carga, basicamente focando o porto de Suape, acho que será viabilizado. É uma coisa surpreendente. Os aeroportos sobrevivem na base do movimento de cargas. O aeroporto de Guararapes, Guarulhos e com mais razão aqui. A carga dá o suporte financeiro.

Salinas do Maragogi continua formando mão de obra e ofertando empregos

O senhor acredita que o aerporto será um divisor de águas para o turismo de Maragogi e da região? 

Olhe, uma ocasião dessas, conversando com um Brigadeiro, ele me disse uma coisa muito interessante. Um aeroporto em Maragogi seria o correspondente a oito quilômetros de pista rodoviária. Esse trecho de pista para pousos e decolagens ligaria Maragogi ao mundo. E oito quilômetros de pista rodoviária, ligariam quase nada ao nada. O aeroporto é uma coisa fantástica para o turismo.

Por falar em rodovia, como o senhor avalia as condições de nossas estradas?

Estive na França recentemente e percorri mais de mil quilômetros de auto-estrada. Não encontrei um remendo, quiçá buraco. Agora, paciência, não é? Não sei quando é que vão reiniciar e fazer as obras em nossa região. Aquela estrada de Porto Calvo a Porto de Pedras também é um exemplo. Eu tinha vontade de fazer algum investimento naquela região, mas a estrada nunca termina. Aqui, começaram as obras de recuperação e não terminaram por causa das encrencas.

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COMENTÁRIOS
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  1. pedro

    Muito boa matéria Carvalho, em absoluta primeira-mão,
    com êsse desbravador do turismo Alagoano, Sr. Márcio
    Vasoncelos.

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  2. Ricardo Almeida

    Prezado Severino,

    Parabéns por mais esta iniciativa, tornando público histórias como esta do Grupo Salinas, patrocinada pelo sonho de homens que dedicam suas vidas a negócios que sobretudo são capazes de transformar e engrandecer toda uma região.

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  3. Clóvis

    Parabéns ao Grupo Salinas! Eu soube que 16 hotéis serão inaugurados em Alagoas até a copa de 2014, e o hotel de Japaratinga deverá ser 17º. Alagoas passa agora por desenvolvimento econômico, e o Grupo Salinas está também contribuindo com esse progresso em nosso Estado.

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  4. Lucia

    Parabéns pela matéria Severino e, extenciono ao empreendedor Vasconcelos pela iniciativa e persistência em acreditar em nossa Alagoas.

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  5. Plinio Guimarães

    Parabéns Severino pela materia, parabéns Dr. Marcio pela coragem e empreendedorismo. Conheço bem esta história, pois vivi parte dela de 1995 a 2001! Maragogi deve muito a este empreendedor que acreditou em algo que parecia impossivel na época. Se existem dificuldades hoje, imagine na década de 80?

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  6. sergio mario wanderley

    Conheco um pouco desta historia , parabens , o grupo salinas colocou maragogi no turismo nacional e internacional, parabens DR. MARCIO

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  7. Joao Francelino

    A primeira vez que fui à Maceió, foi em Dez/1992…a capital ainda era maravilhoso como a Ponta Verde e Pajucara..então fiquei mais centralizado nesse lugar mas, costumava pegar ônibus e desbravar o litoral norte, com o meu tio que morava na cidade…chegeui a conhecer até “Sonho Verde”, “Sereia” e o mais longe foi até Sto. Antonio da Pedra…
    Pois é, lendo essa reportagem, me senti na pele desse “Visionário”…única diferença, não ter conhecimento e muito menos dinheiro…só tinha 18 anos. Foi uma época certa! – Parabéns!!!

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